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the aristocrats+play

Um fim de semana de variedades: uma peça de teatro exigente, um filme fora de vulgar, e uma exposição de pintura de uma amiga.

Podemos começar pelo fim. A minha amiga C. fez a sua primeira exposição de pintura. Como sempre é difícil olharmos de forma desabrigada para alguma coisa feita por alguém de quem gostamos. Houve um quadro de que francamente não gostei, e alguns elementos de outros de que também não. Gostei muito de quatro dos quadros. Gostei do predomínio das cores, gostei dos perfis das cidades, gostei das linhas de fuga, gostei das pontes.

Na sexta-feira à noite fui ver a mais recente produção d’A Escola da Noite, Play, composta por quatro peças curtas de Samuel Beckett. É a segunda vez que a Escola encena Beckett, desta vez com encenação da Sofia Lobo. Gostei sobretudo da peça Play, a terceira a ser apresentada, porque achei muito bem conseguida, um daqueles casos felizes em que a encenação serve o sentido da peça, ilumina-o e amplia-o. De certa forma, torna mais claro o conceito teatral de Beckett e a sua predilecção, para usar uma feliz expressão do programa, por esses ‘farrapos de existência’.
Para além de tudo o mais, a Escola da Noite tem sido uma escola de actores. A Sílvia Brito tem, nas duas peças em que entra, um brilhantismo, uma definição, impressionantes. O Carlos Marques é um actor físico, com um domínio do corpo quase absoluto.

Diz que há uma piada entre os humoristas norte-americanos que se chama The Aristocrats. Diz que essa piada é usada um pouco como teste da imaginação e da capacidade de improvisação e um pouco como exercício de destreza. O realizador Paul Provenza e o produtor Penn Jillette (do duo de mágicos humoristas Penn & Teller) entrevistaram dezenas (centenas) de humoristas, para falarem dessa piada e para contarem as suas próprias versões e o filme não tem outras imagens que as dos humoristas a serem entrevistados para a câmara. O resultado é um documentário de 90 minutos com a linguagem mais obscena e grosseira e de mau gosto que se possa imaginar. Vale tudo: sexo, pedofilia, bestialidade, escatologia, incesto, violência. Tudo. Não há palavras que descrevam o nível de grosseria. Dito por humoristas que nos habituámos a gostar e a respeitar. Como disse, são dezenas, só para exemplificar o tipo de pessoas de quem estamos a falar, escolho 5 nomes da lista: Jason Alexander, Whoopi Goldberg, Eric Idle, Jon Stewart, Robin Williams.
O que o filme tem de notável (eu ia escrever ‘genial’, mas não sei) é que ao longo e no meio de tanta obscenidade e nojeira, vai-se revelando de uma forma inacreditavelmente subtil, a essência do que é o humor, dos seus limites ou da falta deles, e de como não há nada de mais trágico e humano e frágil e poderoso do que o humor.
Ah, é verdade, a piada é assim: um tipo entra no escritório de um agente teatral e diz-lhe: tenho para lhe propor um número familiar. O agente pede-lhe que descreva o número e o tipo começa: bem, eu entro em palco e…
Tags: cinema, exposições, teatro
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