miguel (innersmile) wrote,
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the new world

Suponho que The New World, de Terrence Malick, seja daqueles filmes aos quais se aplica o lugar-comum de que ou se amam ou se odeiam. Nesse caso, e para encurtar razões, eu faço parte do clube dos que amam. A questão então resume-se a tentar perceber as razões para esse amor!
A verdade é que, logo à partida, eu gosto de filmes contemplativos, de longos e demorados planos, em que a acção, para usar um termo fácil, escorre mais das próprias imagens, é uma coisa que se vai compondo ao longo do filme, digamos que não é tanto a acção que conduz o filme, mas que se deixa levar por ele.
Depois o filme tem uma pureza, uma candura. Que não deve ser confundido com ingenuidade, aliás o filme não é nada naive, tem até uma crueldade que o torna um objecto magoado e doloroso. Não há nada daquela história do bom selvagem, há no filme como que a consciência amarga que a chegada dos primeiros colonos ao solo da América do Norte iria determinar um novo mundo, enunciado no título do filme, e o filme de certo modo como que nos mostra os pedaços de que era feito o velho mundo, esse que morreu para dar lugar ao novo. Sem julgamentos, sem juízos críticos. A história é uma inevitabilidade e não é um bom princípio sermos demasiado severos com aquilo que deu origem ao que nos tornámos. Por isso não vale a pena julgar, tomar partido. É se calhar preferível olhar e tentar perceber. De certa forma, Malick filma como se não houvesse amanhã, quer dizer, tenta captar esse momento anterior à história, tenta perceber como foi esse primeiro olhar entre dois povos, duas culturas, dois mundos que nem sequer suspeitavam da existência um do outro.
O que nos leva de novo aos planos demorados do filme sobre a paisagem virgem da Virgínia, onde o filme tem lugar (pelo menos na sua maior parte). É quase uma forma obsessiva de filmar a paisagem, o território. E nem sequer se diga que isso torna o filme uma espécie de documentário do National Geographic, porque apesar de tudo, o olhar da câmara de Malick é um olhar carregado, é um olhar perscrutador. O plano demora-se a observar a paisagem porque há uma esperança de que as respostas estejam inscritas no território, que haja efectivamente uma resposta, e que à força de olharmos a terra essa resposta se poderá revelar, quase como se estivéssemos num laboratório, numa câmara escura, à espera que a fotografia se revelasse, se desvelasse.
Mas para além disto tudo, o filme de Malick é ainda uma comovente história de amor. E é aqui que, na minha opinião, o filme se agiganta, porque o que torna esta história comovente não são apenas ou sobretudo as suas peripécias, o seu enredo, mas a forma como ela está contada, o modo como, mais uma vez, Malick não resiste ao desafio de tentar mostrar a essência do amor através dessa acção simples e pura que é olhar para ele. Não interessa tanto o modo como as coisas acontecem, os factos e as suas cronologia e causalidade; interessa muito mais olhar o amor, tentar captar aquilo que nele não se vê nem se diz. Deixá-lo livre na orla dos bosques ou na margem dos rios, e tentar fixar num plano aquilo de que ele é feito. Tentar, de certo modo, compreender o incompreensível. E fazê-lo com a certeza aguda e triste e serena de que um filme assim está à partida condenado ao fracasso.
Tags: cinema
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