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match point

Parte do gozo do filme de que vou falar tem a ver com a incerteza quanto ao desfecho final. Apesar de não revelar (muitos) pormenores do enredo do filme, pode resultar do texto o sentido do desenlace da história, o que estraga a surpresa e compromete o interesse. Estais avisados: advance AYOR!


Havia uma canção no disco Spanish Train and Other Stories (1975), do Chris DeBurgh, que começava assim: 'Dennis is a menace with his «anyone for tennis?»' O Woody Allen não é menace nenhuma quando nos faz o mesmo convite no início de Match Point, que começa com o seguinte pressuposto: numa partida de ténis, quando a bola está a ser trocada de um para o outro lado do court, há um momento em que a bola bate no rebordo da rede e fica uns instantes ali a girar. Não há nada que possamos fazer. Se tivermos sorte, a bola cai para o outro lado da rede e fazemos o ponto; se tivermos azar, ela cai do nosso lado e perdemos. As duas horas seguintes são passadas a demonstrar, por vezes de forma rigorosamente literal, esta tese.
Match Point é seguramente o melhor filme de Allen dos últimos tempos. Não vou ao ponto (como já li) de dizer que é o melhor dos últimos vinte anos, mas é seguramente melhor do que os últimos três ou quatro. Sobretudo porque é um filme muito meticuloso, com aquela precisão maníaca e obsessiva que era uma das marcas do cinema de WA. Ultimamente tínhamos um pouco a ideia de que Woody se estava a abandalhar um pouco, por preguiça ou por não se fascinar o suficiente pelas histórias que inventava para os seus filmes. Aqui não, volta a haver detalhe, volta a haver o requinte do plano e da sequência. E isto apesar de ser um filme à primeira vista muito diferente daquilo a que estamos habituados em Woody. A começar pela banda sonora: Allen abandona as velhinhas faixas de jazz e desta vez dá-nos ópera, velhinhas faixas de ópera. Depois, é a primeira vez que me lembro de Woody, a personagem, não entrar num filme de Allen o realizador. É que mesmo quando não entra como actor, há sempre uma personagem que é a personificação de Woody, mas desta vez isso não acontece, não há nenhuma daquelas personagens que seja Woody.
Mas a maior diferença relativamente ao cinema de Allen a que estamos habituados, é que o filme passa relativamente longe do clima de paranóia e obsessão que caracteriza habitualmente os filmes do realizador, nomeadamente as suas 'sexual comedies'. Quando Woody Allen foi mais brilhante, foi quando elaborou acerca de um tipo que tinha algumas dificuldades em lidar com aquilo que poderíamos denominar a normalidade nas relações humanas, e quando tornou essas dificuldades o próprio centro dos seus filmes. Se bem que neste Match Point não estejamos a falar propriamente de pessoas que se relacionem umas com as outras de forma mais ou menos limpa, a verdade é que o centro do filme não é isso, mas a própria acção, as peripécias. Estamos perante um filme de género, e esse género não é 'woodyallen', é um thriller, um thriller cómico, ou irónico-desencantado, um whodunnit.
Apesar das novidades, Match Point não falha algumas das características a que nos habituámos a ver no cinema de Allen: o refinamento da escrita, o ambiente sofisticado, até os personagens, que, se repararmos bem, são aquilo que Allen deve considerar as versões inglesas das suas personagens nova-iorquinas: cultas, educadas, afluentes, disfuncionais q.b. para terem algum interesse. Infelizmente, enquanto o olhar de Allen sobre Manhattan e os seus habitantes é muito genuíno, há em Match Point uma dose de cliché bastante razoável. Aliás, um dos aspectos curiosos deste 'Um Lobisomem Americano em Londres' é que por vezes temos a sensação de conseguir 'ler' as repérages que Allen há-de ter feito para o filme.
Como já referi, a premissa do filme é a de que se tivermos sorte a bola bate na rede e cai para o lado certo do court. Depois de explanar a sua tese, o filme conclui que tu podes ser o tipo mais imoral, mais canalha, podes enganar a tua mulher e matar a tua amante grávida para preservar o teu casamento de conveniência, podes até matar uma velhinha inofensiva e considerar isso um dano colateral (no seu recorte psicológico, a personagem de Chris é a melhor personificação que eu vi no ecrã do Tom Ripley da Patrícia Highsmith), enfim podes ser o maior crápula, que, se a sorte estiver do teu lado, não te acontece nada de mal. Não deixa de ser uma terrível, mas deliciosa, ironia, pensar que tu podes ser um tipo que engana a tua mulher e se casa com a própria filha adoptiva, que, se a bola cair para lado certo, estás safo.
Tags: cinema, woody
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