miguel (innersmile) wrote,
miguel
innersmile

ora então vamos lá

Esta campanha eleitoral para as presidenciais não me motivou minimamente, razão porque nem sequer me tinha apetecido escrever sobre elas aqui no innersmile. Ao contrário do que aconteceu noutras ocasiões, em que andei por aqui a fazer campanha eleitoral porque achei que tinha obrigação de fazer o que pudesse para influenciar o resultado. Mas vamos ao que interessa.
Vou votar no Soares.
Fiquei muito desiludido quando o PS o escolheu para candidato. Achei que foi uma decisão pessimista, cobarde e calculista. Pessimista, porque partia do princípio que o Cavaco tinha as eleições ganhas. Cobarde, porque perante esse cenário teve medo de ir à luta. Calculista, porque se escolheu não o candidato que tinha mais hipóteses de ter um bom resultado, mas aquele que mais facilmente concentraria sobre si as responsabilidades da derrota, livrando o PS e o governo de um embaraço. Achei injusto para o Mário Soares, que, apesar de tudo, já tinha idade para ter juízo e deveria ter resistido à tentação de fazer um braço de ferro final com o seu ‘querido inimigo’ Cavaco.
Se o desafio, de derrotar um candidato vencedor à partida, era muito grande, então o PS, quer dizer o Sócrates, deveria ter arriscado muito. Tinha sido, por exemplo, a ocasião própria para testar uma candidatura feminina, e há mulheres no PS com o perfil adequado para o efeito. Uma candidatura desse tipo iria galvanizar o eleitorado, iria dar interesse às eleições, e era uma jogada tão arriscada que, em caso de derrota, toda a gente iria comentar que o país não estava pronto para uma mulher na presidência e ninguém se iria entreter a desancar no governo.
Porquê então, apesar disso tudo, votar em Soares? Por duas ordens de razões: negativas e positivas. Quanto às primeiras, porque, apesar de tudo, o Soares ainda é o que sobra quando começo a eliminar hipóteses. Votar Cavaco está fora de causa. Não gosto do homem, nunca gostei, não me identifico com a sua ideia de Portugal e dos portugueses, não me agrada o discurso. Esta campanha, aliás, só confirmou uma ideia que eu já tinha, a de que o Cavaco tem um discurso hipócrita e tão retórico como os piores. Aquela história de ele não ser político é uma treta, o tipo está na política há quase trinta anos, e mesmo quando parece que está fora, vai gerindo muito bem as suas intervenções. Há cinco anos que ele vem preparando esta candidatura, e se isso é estar fora da política, vou ali já venho. O ponto é que ele só usa esse discurso porque acha que consegue dessa forma atrair a classe média, que está descontente com os políticos.
Está igualmente fora de questão votar no Alegre. Irrita-me uma certa postura dele de aristocrata republicano, de bardo oficial da aldeia, um tipo cuja existência basta para enriquecer o país e justificar que lhe paguem por isso. Está igualmente fora de questão votar no Louça, pelas mesmas razões que não voto no Bloco de Esquerda: não percebo o discurso nem a ideologia.
Entre votar no Jerónimo e no Soares, mon coeur balance. Quer dizer, balançava. A pequeníssima diferença é que, apesar de tudo, a candidatura do Jerónimo tem mais aquele carácter de contar armas, de não perder uma oportunidade para afirmar o discurso de sempre do PC.
Mas apesar destas razões negativas, há também razões positivas que me levam a votar no Soares. A primeira é que, por contraste com os outros candidatos, o Soares é sempre, e sempre foi, ‘wysiwyg’ – está à vista, não engana ninguém, não se dissimula nem finge coisas que não é. Ele é aquilo que ali está, para o bem e para o mal. E é aquilo que sempre foi. Está um pouco gaga, pois está. Atrapalha-se, perde as estribeiras com mais facilidade, comete mais gaffes do que costumava cometer, é verdade. Mas mantém a argúcia e a capacidade de ler o mundo à sua volta. Mantém o instinto político, como ficou patente no debate com Alegre. Mantém a visão, a capacidade de ver para a frente. Soares tem, continua a ter, uma ideia para o país, sabe precisamente o lugar onde gostaria de ver Portugal chegar.
Além disso Soares é um optimista, acredita no povo português, não acha que sejamos uma cambada de mandriões que foge aos impostos e tem fraca produtividade, que parece ser a ideia que as nossas elites actualmente têm dos portugueses. Eu acho que, nos tempos de enorme dificuldade económica e social que atravessamos, é preciso optimismo e crença no futuro. Basta de depressão.
Já não é o que era? Pois, se calhar é verdade. Mas eu acho que, mesmo com os defeitos todos, com os defeitos que a idade agravou, Soares é, no panorama destas eleições presidenciais, o único candidato que faz sentido. Para mim, claro. E é por isso que vou votar nele no Domingo.
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