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meus quadros

Inaugurou-se, ontem, uma exposição de pintura de um amigo meu. O Efe está a fazer a sua terceira exposição individual, com trabalhos realizados no ano passado e no presente, em óleo, acrílico e aguarela.
Já uma vez escrevi aqui, a propósito de uma outra exposição de outros amigos, que nunca conseguimos olhar para este tipo de coisas sem que o nosso olhar seja contaminado pela circunstância de sermos amigos dos autores. E neste caso quando eu já conhecia alguns dos quadros e já os tinha discutido com o Efe.
Mas, apesar de tudo, há quadros e quadros nesta exposição. Aquilo que me agrada muito na pintura do Efe (quanto àquilo que me agrada mais, já lá vamos) é que é muito figurativa, está muito próxima do desenho, da composição. Por vezes, lembram-me banda desenhada, de tal modo me sugerem ficções, me contam histórias. São esses os quadros de que mais gosto, sem dúvida. Porque, possivelmente, são aqueles que melhor consigo ler, ou antes: são aqueles de que mais facilmente me aproprio.
É fascinante conversarmos com o autor sobre a sua obra. É um mundo que se desdobra à nossa frente, sem dúvida. Mas também pode ser um pouco limitativo, porque depois de explorarmos um quadro com a ajuda do olhar de quem o criou, torna-se mais difícil criarmos o nosso próprio sentido, lermo-nos a nós no quadro sem a ajuda do autor. É uma experiência interessante: apaixonei-me por um dos quadros da exposição quando o Efe mo explicou. Mas também me apaixonei por outro, apesar da explicação do Efe; ele disse-me o que o quadro representava, mas isso só constituiu o ponto de partida para a minha própria relação com o quadro.
Mas subjacente a isto tudo, há aquilo que me parece essencial na pintura do Efe, e que é o modo como ele usa a cor. Não sou capaz de explicar, domino muito pouco os códigos que me permitiriam analisar a pintura como deve ser. Mas o tamanho da minha ignorância não me impede de me fascinar com aquela utilização quase erótica da cor, ou melhor, da tinta. Porque o que dá erotismo à pintura, não é a cor, mas a tinta, o material, a quantidade de tinta que se agarra ao pincel, a forma como o pincel se derrama na tela. E é olhando para os quadros, para a forma densa (sim, meu caro, é sempre esta expressão que me vem) como a cor vai ocupando a tela, num gesto que é simultaneamente quente e sóbrio, subtil mas extravagante, discreto mas assertivo, que eu vou tentando construir, não já a matéria de que é feita a sua pintura, mas a essência e a natureza do seu pintor.
Tags: exposições
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