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alice

Há uma cena em Alice, o filme de Marco Martins, em que Mário, o protagonista, está sentado num banco de rua ao lado de um tipo com ar de doido, com uns óculos de lentes grossíssimas. Mário levanta-se e o tipo fica a olhar para ele, a cabeça um pouco de lado, com uma expressão de absoluta perplexidade. De certa forma é esse o olhar que suscita este filme admirável. É esse o olhar que o filme lança à sua personagem, um olhar incrédulo e perplexo perante aquela dor incompreensível, como se o próprio filme não percebesse a força que empurra Mário para fora e para a frente num percurso que a câmara tenta seguir e estabelecer. E é igualmente esse olhar perplexo o nosso, que em agonia tentamos ler no filme um sentido para aquela dor imensa, uma saída que seja possível racionalizar.
O filme, de certa forma, é o lugar desse vazio que aos poucos ocupa o lugar da dor. Uma linha frágil que unifica todos os elementos: o automatismo das rotinas de Mário, a sua dor inesgotável, o pulsar anónimo e cinzento, húmido e frio, da cidade e dos seus habitantes e dos seus constantes movimentos, a pé ou de automóvel. E é essa linha frágil, marcada apenas pela necessidade de inspirar e expirar, de manter acordado o impulso, o batimento cardíaco, que o filme procura. Como se aquilo que nos salva da loucura ou da morte fosse apenas uma obsessão de viver.
Claro que um filme assim, com uma narrativa apesar de tudo frágil, tem de viver de pilares muito fortes. Como a interpretação absolutamente genial de Nuno Lopes que nos dá, num mesmo olhar, num mesmo gesto (ou a sua ausência), o terror do vazio e a obstinação da busca. Como a música de Bernardo Sassetti, que é de uma melancolia lírica e pungente. Como os próprios recursos fílmicos da obra, seja ao nível do discurso narrativo (o filme usa de forma exemplar a elipse, que dá tempo e respiração ao movimento e ao percurso da personagem de Mário), seja, por exemplo, ao nível da fotografia e da qualidade da imagem.
Alice é um filme de uma tristeza total, profunda, absoluta. É um filme de dor, como nas terríveis cenas da esquadra da polícia, em que o desespero de Luísa se situa nas margens da visibilidade e do pudor. É um filme de desesperança, como nesse desamparo insuportável em que Mário mergulha depois de desconhecer na menina de casaco azul a sua filha desaparecida. Mas é um filme de prazer e reconhecimento. De prazer, porque é uma maravilhosa experiência de cinema, do prazer de fazer e ver cinema, de domínio dos seus vocabulários, e das suas linguagens. E de reconhecimento porque o que Alice nos dá é a medida dos nossos sentimentos e das nossas emoções. Comove-nos aquela tristeza, aquela impossibilidade de compreensão, porque tem exactamente o tamanho e a medida da nossa vida.
Tags: cinema
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