miguel (innersmile) wrote,
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Já escrevi sobre o filme (mais do que uma vez, até), mas sentia que me faltava dizer ainda alguma coisa sobre In My Country, o filme que John Boorman fez tendo por pano de fundo (na verdade, tendo por tema principal) as comissões de verdade e reconciliação a que o regime democrático sul-africano recorreu para sarar as feridas profundas e dramáticas do apartheid.
Na sua habitual crónica de ontem, na Pública, José Eduardo Agualusa diz muito disso que faltava dizer. Sobre o filme, sobre o valor dessas comissões. E sobretudo sobre África, sobre a complexidade dos seus problemas, e sobre a capacidade de os resolver.


VERDADE E RECONCILIAÇÃO

Creio que pouca gente deu por ele. Passou pelas salas de cinema de Lisboa sem estrelas, sem fogo de artifício, e acorrentado, ainda por cima, a um título enganador - "Um Amor em África". O título original, "In My Country" também não consegue traduzir a complexidade de temas que o filme trata. Teria sido melhor manter o inquietante nome do romance no qual se baseia, "Country of my Skull" (1988), de Antjie Krog, ou então chamá-lo, por exemplo, muito simplesmente, "Verdade e Reconciliação".
No filme de John Boorman, o actor Samuel L. Jackson dá alma a Langston Whitfield, jornalista norte-americano enviado a África do Sul para cobrir as audiências sobre a Comissão para a Verdade e Reconciliação. Juliette Binoche é (de forma muito convincente) Anna Malan, que, como Antjie Krog, nasceu e cresceu no seio de uma família tradicional afrikanner, e se tornou conhecida enquanto poetisa, esforçando-se por devolver alguma ternura, pureza e dignidade, à língua que deu ao mundo uma das mais horríveis palavras do século XX: apartheid. Anna é, pois, uma mulher dividida entre a solidariedade à tribo, e a vontade de participar na construção do novo país do arco-íris. Langston Whitfield representa o americano negro, que se julga africano, porque assim o tratam no país onde nasceu, e desembarca em África carregado de preconceitos e ideias feitas. O confronto entre os dois personagens, tendo como pano de fundo os trabalhos da Comissão para a Verdade e a Reconciliação, permitem a Boorman explorar algumas contradições da complexa sociedade sul-africana, mostrando que também ali não há brancos puros nem negros retintos - ou vice-versa.
O olhar de Boorman pode ser por vezes um pouco ingénuo, em particular quando tenta apresentar a filosofia banto do ubuntu - "somos aquilo que fazemos aos outros" -, quase transformando o filme numa fantasia para entreter crianças. O essencial, porém, está lá: a demonstração de que os sul-africanos foram capazes de ultrapassar sozinhos, com recurso ao seu próprio pensamento, um conflito que durava há gerações. Isto foi o que muitos críticos ocidentais, que desprezaram o filme, não conseguiram ou não quiseram ver.
Os europeus gostam de pensar que sem a sua ajuda África não sobreviveria. Essa certeza reconforta as boas almas atormentadas pelo remorso colonial, ao mesmo tempo que eleva a auto-estima de quem sofre as consequências de uma crise económica sem fim à vista. Corre na Internet, traduzida já em diversas línguas, incluindo a nossa, uma entrevista que o economista queniano James Shikwati concedeu recentemente à revista alemã Der Spiegel.
"Pelo amor de Deus", grita Shikwati: "parem de ajudar África!"
Depois explica-se: "Burocracias gigantescas são financiadas com o dinheiro da ajuda dos países ocidentais. A corrupção e a complacência são promovidas, os africanos aprendem a ser mendigos, e tornam-se dependentes. Além disso, a ajuda ao desenvolvimento enfraquece os mercados locais em toda parte e mina o espírito empreendedor de que tanto precisamos. Por mais absurdo que possa parecer, a ajuda ao desenvolvimento é uma das causas dos problemas da África. Se o Ocidente cancelasse esses pagamentos, os africanos comuns nem sequer perceberiam. Somente os funcionários públicos seriam duramente atingidos".
Talvez não seja exactamente assim. Não será assim, pelo menos, em todos os casos. Mas creio que vale a pena discutir as ideias de Shikwati. Ao encontrarem sozinhos as soluções para os seus problemas os africanos têm a possibilidade de recuperar a dignidade dos homens livres, e, eventualmente, a de abrir caminhos originais, capazes de aproveitarem a toda a humanidade. Foi o que aconteceu na África do Sul. A Comissão para a Verdade e a Reconciliação tem sido usada como modelo em cenários semelhantes, como em Timor-Leste, com resultados geralmente muito bons.
O meu receio é que o repto de James Shikwati fique sem resposta. Como ele próprio alerta na referida entrevista os chamados programas de ajuda ao desenvolvimento servem muitos interesses. Na maior parte dos casos esses interesses estão a norte do equador.

Tags: agualusa
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