miguel (innersmile) wrote,
miguel
innersmile

paulo nozolino: far cry

São mais de oitenta fotos que atravessam os trinta anos da carreira do seu autor. A exposição, de Paulo Nozolino, adopta o nome de Far Cry, para abranger essa tranversalidade. Procuremos então as pistas, os sinais.
A primeira pista pára numa certa distância entre o fotógrafo (ou, se preferirmos, a câmara) e o objecto da fotografia. Talvez possamos dizer que a imagem é sempre essa mediatização, o caminho percorrido por essa distância. Mas o que aqui queremos dizer é que esta fotografia dilui (no grão da imagem?) a dicotomia entre objectividade e subjectividade. O objecto da fotografia nunca abstrai do facto de estar a ser fotografado (mesmo quando é uma paisagem, mesmo quando é um cadáver), tem sempre consciência de que está a ser exposto. Aquele objecto mostra-se. Mas há como que uma barreira entre o objecto e o fotógrafo, quase como se o fotógrafo fugisse (“não há fuga”) de ser tocado, ou ao menos tentasse manter as distâncias, não se deixar confundir. E isto é muito evidente numa fotografia em que um homem sentado à mesa de um café segura um copo na mão e fita a câmara. De alguma forma sentimos que esse homem reflecte outro, que se esconde atrás do visor da câmara – isso é evidente numa espécie de atracção latente; mas ao mesmo tempo a câmara como que recusa, como que faz que não percebe, as perguntas formuladas por esse olhar. Mais do recusar-se a responder, recusa-se a receber as perguntas. É desta distância, de certa forma desta recusa de contaminação, que se faz esta primeira pista. Por isso, o que nos chega das fotos é sempre um far cry.
A segunda pista tem a ver com a luz. A luz é a definição da fotografia, ou passa por sê-lo. Aqui nestas fotografias, a luz é sempre intrusa. Fotografa-se em fuga (“não há fuga”) da luz. As paredes das salas estão pintadas de cinza, os estores das janelas corridos. As fotografias parecem sempre estar no limite da visibilidade, como que se destapam da sua escuridão, da sua sombra, o suficiente para poderem ser visíveis. As salas da exposição com os seus estores corridos, as suas paredes pintadas de cinza, as suas fotos sempre no limite da sombra, parecem estar ali em suspenso à espera da noite, à espera do momento em que alguém desliga as fontes de luz artificial e fecha a porta atrás de si. Então, seria a ocasião perfeita para ver esta exposição, caso isso, claro, (ainda) fizesse sentido.
Eventualmente poderíamos buscar outras pistas, uma certa representação da desolação, até do desespero, ou de um certo desespero, mas não me parece muito que essa caminho nos leve a algum lado. Porque se há fotos evidentes, há outras que escapam completamente a qualquer tentação temática. Dir-se-á então que o lugar da desolação não está no objecto retratado, mas no objecto fotografia em si. Bom, mas neste caso, estamos de regresso às pistas anteriores. Mas não recusemos já esta tentativa de encontrar uma terceira pista temática. Eu sei que é um recurso fácil, ou demasiado óbvio, mas se há algum referente temático em Far Cry, eu só o consigo encontrar numa palavra de Al Berto, que é, de todos, o poeta que está mais próximo das fotografias de Paulo Nozolino (ou vice-versa, para o caso é radicalmente indiferente). Essa palavra é salsugem. Salsugem: é esse o lugar que, através da sombra e da distância, estas fotografias nos trazem.
Tags: exposições
Subscribe
  • Post a new comment

    Error

    default userpic
    When you submit the form an invisible reCAPTCHA check will be performed.
    You must follow the Privacy Policy and Google Terms of use.
  • 9 comments