miguel (innersmile) wrote,
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wojtyla

O facto de estar de férias longe da televisão poupou-me àquilo que, aparentemente foi mais um estardalhaço mediático, desta vez a propósito da morte eminente do Papa João Paulo II. Soube da morte do Papa lá longe, sentado num restaurante, de frente para as Pirâmides de Guiza, porque uma das colegas de passeio recebeu uma SMS com a notícia.
Tive assim a oportunidade rara de reagir a uma notícia sem qualquer tipo de poluição informativa. E tenho de confessar que a minha reacção imediata, perante uma morte que era mais do que esperada, foi de tristeza. Não propriamente de desgosto, claro, mas, apesar de tudo, de tristeza.
E digo apesar de tudo, porque sempre fui muito critico deste Papa, e sempre cada vez mais nos últimos anos. Acho que este Papa corporizou algumas das maiores contradições da Igreja Católica, e choca-me que de algumas dessas contradições resulte essencialmente sofrimento humano. Não a mim, pessoalmente, que não sou crente, e muito menos fiel, e por isso os ditames e os juízos da Igreja Católica não me molestam . Mas a todas aquelas pessoas que acreditam, e que têm de viver o drama íntimo de terem comportamentos ou características que a Igreja Católica não aprova, ou, pior, condena.
Mas, como disse, não pude deixar de sentir tristeza com a morte do Papa. Primeiro, porque este é, ou foi, o Papa da minha vida. Ou seja, foi durante o longo pontificado de João Paulo II que eu vivi a minha idade adulta, e, portanto, foi ele a face da Igreja Católica, e o meu interlocutor, durante a minha atribulada relação com ela.
Depois, é verdade que houve algumas vezes que me entusiasmei com acções do Papa. Por exemplo, com o papel que ele teve na luta dos sindicatos polacos, através do apoio da igreja católica polaca, e que foi o primeiro passo na implosão do chamado bloco de leste. Também sempre fui muito sensível à peregrinação do Papa, que percebeu que tinha de ser ele a correr o mundo, a ir ter com as pessoas, sobretudo com os pobres e os explorados, para lhes dar uma mensagem de esperança. Acho, por exemplo, espantoso que um homem como Fidel Castro tenha, e demonstre como foi agora o caso, um enorme respeito por João Paulo II.
Quando o Papa veio a Coimbra, em Maio (creio que a 15) de 1982, fui ao estádio municipal vê-lo e acolhê-lo. O estádio, tal como era, já não existe, foi desmantelado. O Papa morreu. Se calhar é por isso que estou triste.
Tags: obituário
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