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conto (topografia): rua carrignton da costa

RUA CARRINGTON DA COSTA

amo-te luís

e corro com um dedo o teu peito branco, hei-de tocar-te sempre, e hei-de beber sempre pelos teus lábios encarnados. tu far-me-ás um desenho no teu bloco, que eu vou guardar para sempre dentro de uma caixa que fui eu que comprei, junto das outras coisas que eu trago sempre comigo. mesmo que um dia deixes de me amar, e até me podes matar, não sei, porque sem ti o rio não corre para o mar, nem a ponte lá em baixo servirá se não for para eu voar. e entre as duas omoplatas nasce sempre água, e escorre pelos teus flancos que eu vou provar um dia. vê como deste miradouro nós tropeçamos até ao rio, um dia a cidade lá em baixo será nossa, e não nos consumirá mais em viagens de autocarro sem sentido. Daqui é uma porta, meu amor, daqui vemos que o mundo é nosso, como meu é o teu corpo em segredo. queres que a minha mão voe por dentro de ti, e eu beijo-te tão fervorosamente até seres água do rio, e eu sentir que nesse momento não há mais nada na cidade, de todos os lados da cidade, do lado de cá e do lado de lá da cidade, do lado de dentro e do lado de fora da cidade, do lado de cima e do lado de baixo da cidade, do lado de mim e do lado de ti da cidade, só nos os dois, eu ser tua e tu seres meu, e nada nada é neste momento mais forte do que o teu abandono, porque morres devagar a cada inspiração ofegante, na minha mão ainda lateja o teu coração.

amo-te vânia

e a promessa que te fiz sem tu saberes é que um dia te vou desfolhar uma a uma, pétala a pétala, barco a barco, fonte a fonte, até tu me trazeres de volta um jardim que eu ando há tanto tempo à procura. sinto-me crescer e sinto que cresço para ti e todos os dias antes de te ver é como se não houvesse música no mundo, só o silêncio das vozes e dos carros, e o silêncio das horas, que é aquele que me rasga a camisa quando me puxam para fora e eu desvairadamente escorrego para o fundo e sempre mais para dentro, mais para dentro, para esse lugar onde só existe o calor macio do teu ventre que ainda palpita, toda a noite, na minha mão a arder. olho-me ao espelho, escondo o rosto , mas o meu corpo é teu, as minhas mãos procuram-te no meu peito, nas minhas pernas, nesta curva acentuada do meu ombro, e é em ti que eu desaguo e acredito, nos teus cabelos perfumados de noite e tontura, nos teus lábios que são a derradeira estação de serviço antes da auto-estrada do dia, o teu peito que eu agarro como se das minhas mãos nascessem asas e ramos de magnólias. voa dentro de mim, derruba-me num campo aberto, amarra-me às margens do teu rio que corre lá em baixo, daqui és soberana, meu amor, estas muralhas desmoronam-se a teu favor, rasgam-se os telhados encosta abaixo, até tu seres vale, até seres planície sob os meus dedos, coração que lateja na minha mão.
Tags: contos
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