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humanos
rosas
innersmile
Ando encantado com o disco dos Humanos, com as canções do baú de António Variações.
Primeiro porque acho que está muito fiel à música do António Variações, ao espírito das suas canções. O António Variações está sempre presente em todas as faixas, aquelas são sempre as suas músicas, na letra e na música naturalmente, no estilo, mas também nos arranjos vocais e instrumentais.
Mas dizer isto não significa que este é um disco ‘à’ António Variações, uma das razões porque ele me encanta tanto é que é um disco daquelas pessoas que o fazem, é um trabalho com uma identidade muito própria, sem dúvida o maior mérito dos produtores Hélder Gonçalves e Nuno Rafael. É, além disso, um disco muito actual, que evidencia as qualidades das canções e a sua modernidade.
Outra qualidade do disco é que sendo um trabalho de colaborações, tem uma coerência muito grande, do princípio ao fim, não é uma manta de retalhos, muito menos uma parada de estrelas. Os arranjos são coerentes, as participações vocais também. Está um trabalho com uma unidade muito forte e com uma marca distintiva muito acentuada. É um disco dos humanos, que são um grupo de músicos a trabalharem de forma séria e dedicada sobre um grupo de canções de um determinado autor.
Encantam-me, e muito, a Manuela Azevedo, que cola a sua voz ondeante ao gingar ondulante das canções do António Variações, como se não tivesse nascido para cantar outra coisa que não estas canções, e o Camané, que num registo tão distante do fado, seu habitual, consegue ser ele próprio, e ao mesmo tempo parece ser assim uma espécie de alter-vox exacta e perfeita (tanto que comove) do António Variações.
Está, na minha opinião, um trabalho muito feliz, sem dúvida um dos discos do ano, que ajuda a colocar o nome do António Variações na história da música popular portuguesa, como um dos seus nomes mais interessantes e determinantes. Acho que ninguém que não tenha vivido esses inícios dos anos oitenta, quando Portugal vivia na ressaca cinzenta da bebedeira de Abril, e ainda procurava libertar-se dos fantasmas moralistas e beatos do salazarismo cultural e mental, consegue imaginar o que foi o choque de cor e dolência do António Variações a dançar a menear o corpo e a dar às ancas, numa sugestão de dengosidade e convite sedutor. O António Variações foi, tanto quanto me lembro, o primeiro (e dos raros, mesmo nestes vinte anos que passaram desde a sua morte) a pôr o sexo na música. Para além de muitas outras canções antológicas (a começar pelo Estou Além e pela sua versão do Povo Que Lavas no Rio, passando pelos dois discos que editou em vida), estou convencido que a Canção de Engate é um clássico da música popular portuguesa, daquelas canções que vai ser ouvida e interpretada durante muitos anos.
Para além de ser muito bom e moderno, este disco dos Humanos mostra porque é que o António Variações era um músico especialíssimo, corajoso e sensual, capaz de escrever sobre coisas que é tão raro ver na música (e se calhar até noutras formas culturais). E que só ele era capaz de escrever, e fê-lo há mais de vinte anos, uma canção como esta A Culpa É Da Vontade:

A culpa não, não é do sol
Se o meu corpo se queimar
A culpa é da vontade
Que eu tenho de te abraçar

A culpa não, não é da praia
Se o meu corpo se ferir
A culpa é da vontade
Que eu tenho de te sentir

A culpa é da vontade
Que vive dentro de mim
E só morre com a idade
Com a idade do meu fim
A culpa é da vontade

A culpa não, não é do mar
Se o meu olhar se perder
A culpa é da vontade
Que eu tenho de te ver

A culpa não, não é do vento
Se a minha voz se calar
A culpa é do lamento
Que sufoca o meu cantar

A culpa é da vontade
Que vive dentro de mim
E só morre com a idade
Com a idade do meu fim
A culpa é da vontade
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Acho que andamos todos apaixonados pelo cd...
Também estou farta de falar dele no jornaleco!!

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tenho lido o teu entusiasmo :)
o cd é estupendo
para além do Variações, há uma coisa que parece impossível de tão boa: a Manuela Azevedo e o Camaná juntos no mesmo disco e NA MESMA canção!

Conheço apenas essa e aguçou-me a curiosidade pelo resto de cd...

eu acho o disco excepcional. um dos discos do ano, para mim, sem dúvida

noto k nao falasteis do david hummmm

ó pa, eu gosto dele a cantar em portugues, ja gostei no disco do Sergio Godinho e gosto neste. Mas tenho de confessar que nao me arrebata como a Manuela e como o Camané.

Pode ser que o Pai Natal mo traga...

Não conheço... :/
Mas pelo seu arrebatamento e tb da Elsa deve ser realmente bom! :)

Saudades de ti miguel... daqui vou mandar-te um mail.

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humanos

(Anonymous)
O camané e Manuela são optimos, mas a grande surpresa é sem dúvida o David. Disco excelente

O álbum é fantástico, das melhores "peças" portuguesas dos últimos tempos, trabalho de vozes e arranjos excelentes, letras geniais, um Varições sempre presente mas que dá espaço para os interpretes brilharem... David Fonseca sempre a cantar ao meu coração...
Essa letra é de facto das mais significativas também para mim...
»A culpa é da vontade...« - porque nós criamos a nossa vida, a culpa é nossa, para a força do desejo e para as consequências de nos darmos demais...
Um tributo disfarçado a um humanismo existencialista mto certo...

esqueci-me de "assinar"...

www.rainhadovazio.blogspot.com

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