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posto em geolhos

A Assírio & Alvim editou recentemente mais um audiolivro (cd de poesia dita acompanhado de livro com os poemas respectivos) na colecção Sons, com Germana Tangêr a dizer poemas de Pessoa, Almada e Sá-Carneiro.
Hoje apanhei na SicNotícias uma entrevista com a Germana Tangêr no óptimo programa que a Bárbara Guimarães dedica aos livros. Germana, que tem 84 anos (depois de uma certa altura, dizer a idade de uma senhora já não é fraca educação; é antes um troféu), disse um poema de Campos, o Lisbon Revisited (1923), 'quase de cor', só a seguir o texto como cábula. Depois a BG pediu-lhe um poema de Camões. Germana hesitou em dizer um soneto, e depois optou por uma redondilha, que disse sem olhar para papel nenhum, apenas seguindo os gestos das mãos. Foi o momento televisivo do ano, seguramente.

Se Helena apartar
Do campo seus olhos,
Nascerão abrolhos

A verdura amena,
Gados, que pasceis,
Sabei que a deveis
Aos olhos de Helena.
Os ventos serena,
Faz flores de abrolhos
O ar de seus olhos.

Faz serras floridas,
Faz claras as fontes:
Se isto faz aos montes,
Que fará nas vidas?
Trá-las suspendidas,
Como ervas em molhos,
Na luz de seus olhos.

Os corações prende
Com graça inumana;
De cada pestana
Uma alma lhe pende.
Amor se lhe rende
E, posto em geolhos,
Pasma nos seus olhos.


- Luis de Camões
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