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Absolutamente a não perder o artigo de Eduardo Lourenço, hoje no Público: Deriva entre Continentes. Com a lucidez que o carateriza, Lourenço retrata com rigor o fosso atlântico que separa a Europa (a "velha" Europa) da América (a "outra" América). O artigo deveria ser de leitura obrigatória, sobretudo para os que mais fanaticamente se posicionam no "contencioso", quer subjugando-se quer demonizando a América.

Como os links do jornal são temporários, ponho o artigo, for future reference, num
Deriva Entre Continentes
Por EDUARDO LOURENÇO
Sábado, 27 de Novembro de 2004

"Penso, senhores, que a América - a do Norte, do Centro e da Sul - é um facto humano ainda intelectualmente virgem, sobre que se não disse uma única palavra com verdadeiro sentido - ou que dá no mesmo, uma imensa e originalíssima realidade humana, que por ser tão original, quer dizer tão distinta de todas as outras, não se tornou ainda visível e patente".

Ortega y Gasset in Uma Interpretação da História Universal

omo o destino do mundo na ordem económica, financeira, militar e política, tem hoje nos Estados Unidos o seu mais visível actor, mesmo nós, europeus, como se fossemos os gregos do novo império romano que os americanos seriam, admitimos facilmente que eles são e estão "no centro do mundo". Estariam, se os Estados Unidos fossem uma "nação", como a Europa as inventou, com tanta coesão de história e de memória que nem ficou espaço para se construir a si mesma. Os Estados Unidos são apenas o Frankenstein da História, feito dos pedaços da Europa que fugiram à Europa (e em seguida, ao mundo) e lá, depois de limparem a paisagem, (de índios), conservando a nostalgia dos seus ocupantes, se reconstruíram com energia quase desesperada, inventando, ao longo de quase duzentos anos o tempo da primeira guerra púnica, uma identidade de tipo novo, não europeia, tendo no futuro o seu tempo utópico e messiânico, ao contrário dos europeus que, sem ser passado, têm nos diversos passados milenários os seus paraísos mais ou menos perdidos.

O actual sentimento de distância e afastamento, não apenas político, contingente e efémeros nessa ordem, entre os Estados Unidos e a Europa, nada têm de contingente, nem será efémero. Pertence, desde a origem dos Estados Unidos (e mais aquém, desde a descoberta da América), na ordem das coisas ou antes da História. Os europeus que levaram a cabo a descoberta, os colonos das duas américas, os peregrinos que de "motu proprio", se escolheram no outro lado do Atlântico, uma pátria já virtual, mesmo os que o não sabiam, participavam numa aventura que não é exagero rotular, pelos seus efeitos, de "deriva dos continentes". Tão fatal como o movimento de milhões de anos que afastou uns dos outros os blocos que hoje são as Américas e a Europa-África, a História, mais rápida, transformou o Atlântico nesse oceano que tanto une como separa os que hoje ocupam as suas margens.

Os traumas do nosso nascimento de europeus são tão antigos que só em termos míticos interessam, os de Herodoto ou de Freud. Os das duas Américas supuram ainda, são feridas de europa (ou do mundo) separadas da Europa, sonhando com ela, prolongando-a, imitando-a, voltando-lhe as costas para cultivar o seu jardim, reelaborando com tanto farrapo herdado, uma nova cultura, aquela que os Walt Whitman, os Thoreau, mais tarde os Faulkner, os Neruda e mais perto de nós ou connosco os João Guimarães Rosa, os Vargas Llosa, os Garcia Marquez, os Carlos Fuentes, ilustram. Pomo-los, a todos, retoricamente, na "casa das Américas" a que pertencem, e que não é uma só, mas duas, que nós, europeus e, sobretudo ibéricos, perspectivamos de maneira bem diferente. As "duas Américas" nasceram quando a Europa se dividia também em duas e dividida continua, mas só que do outro lado do Atlântico o efeito da divisão europeia criou como que dois "continentes" e não apenas uma pluralidade de nações sem laço orgânico, sobretudo o da língua, entre eles como o da nossa Europa.

Os efeitos desta deriva histórico-cultural ainda hoje são bem visíveis. O real ou fantasmado contencioso (pelo menos na ordem política, embora esse conceito seja indigente) que neste momento nos ocupa, sob a forma de fosso entre os dois lados do Atlântico, não engloba a referência a uma dessas Américas, a de Lula e Chavez, aquela que resiste como pode - e não pode muito - ao rolo compressor do país de Monröe. O nosso contencioso bem mais decisivo e importante na ordem cultural, em sentido largo, do que propriamente no aspecto político, é, como é público, entre a outra América, a de raiz saxónica e matriz protestante, sobretudo e a nossa Europa. A esse título tal contencioso é uma novidade na nossa tradição europeia. E parece alucinatório tomar realmente a sério a ideia de que há ou pode haver, ao menos em termos de competição de carácter hegemónico, uma qualquer guerra entre os Estados Unidos e a nossa Europa. Até porque para haver "guerra" é preciso ser dois, e a Europa não é, como adversário potencial de alguém, coisa nenhuma.

Estamos então a participar aqui num exercício de político/ficção sem um mínimo de justificação histórica ou cultural? Quando as famosas torres caíram, um dos mais célebres jornais do nosso Ocidente europeu, escreveu: "Somos todo americanos" Isso queria dizer não só que partilhávamos então com a América do Norte, a braços com um terrorismo, de perfil inédito, a condenação desse terrorismo, como nos sentíamos próximos, por motivos bem, mais profundos, do país de Washington e de Lincoln mas, também de Marilyn e Woody Allen. Há mais de duzentos anos que a Europa tem relações especiais com os Estados Unidos e não apenas a antiga e mais ou menos madrasta pátria-mãe dos famosos peregrinos. Há apenas oitenta anos, essa América desembarcou, para alívio de europeus suicidas, em terras de França e, há apenas sessenta, nas praias da Normandia. Desta vez, para ficar. Por mais imperialistas que nos pareçam hoje os desígnios hegemónicos dos Estados Unidos - pelo menos, de um dos EUA, aquele que se revê na tradição de Theodore Roosevelt e chega até Bush - esta intervenção nos assuntos europeus não foi (ou não foi só) de iniciativa, da então ainda inocente jovem América. Foi de conveniência da "velha Europa". Como, em tão pouco tempo, esse passado "salvador" dos EUA, se converteu - ao menos aos olhos de muitos europeus, em questão nossa, ou problema e, para alguns, - em "ameaça"?

Mesmo "artificiais", e este recente contencioso não é tanto como parece, este género de querelas entre povos, nações, mesmo aliadas ou salvadoras, têm a sua razão de ser. Como é que esta Europa, libertada duas vezes com a ajuda dos americanos (e, não pouco, dos soviéticos), se encontra nos alvores deste enigmático século XXI, de "candeias às avessas", para usar a expressão que convém ao nosso arcaísmo, com os detentores da luz do mundo, convertidos, como no mais puro dos seus sonhos de domínio, em "super-men" da História?

O contencioso entre a América vencedora da II Guerra Mundial, saída vitoriosa da guerra fria sem grandes custos, sozinha em campo na luta pela hegemonia mundial, era e é, inevitável. É mesmo salutar, sobretudo para uma Europa em busca de uma segunda dimensão realmente europeia que ainda não possui. Só que os termos do contencioso não são entre uma América supostamente de acordo com o exercício do seu "leadership" actual e uma Europa oniricamente unida na sua vontade de contestar ou recusar esse hegemonismo. A esse título, a actual temática do "fosso atlântico" que separaria a América e a Europa uma da outra é um fantasma, a que só a estratégia política de Bush no Iraque deu uma aparência de verdade. Paradoxalmente, só o comportamento cruzadista de Bush, condenado sem reservas por gente tão insuspeita de qualquer antiamericanismo, como Zbigniew Brzezinski ou Charles Kupchan, suscitou esse fantasma e o irrealismo que o acompanham.

Deixando de lado o facto de que a Europa como actor político a sério, não existe fora do quadro em que sê-lo tem sentido, quer dizer como objecto de reajustamento interior das suas nações para criar a "super-nação" com que alguns sonham, a hipótese mesmo de um tal confronto, é um mero sonho dessa Europa mal sonhada. A Europa que sempre se avistou a partir dos Estados Unidos, foi sempre a das suas ex-nações que a representavam e cujo papel de actores por conta própria fazia História e obrigava os Estados Unidos a preocupar-se ou a ocupar-se com os seus destinos. A Europa era a Alemanha, a França, a Inglaterra, naturalmente, quando a sós ou combatendo-se, interferiam nos destinos do mundo. Desde o fim da segunda guerra mundial todas elas - vencedoras ou vencidas - desapareceram do écran americano. Só ficou, como Europa que também era a União Soviética. Com a sua implosão, foi o continente europeu inteiro que se converteu aos olhos dos americanos, ocupando sozinhos o lugar nunca vago do Poder, numa espécie de Titanic do Ocidente, bom para filmes de Hollywood, que nem disso se esqueceram. Num dos melhores artigos sobre a questão que nos ocupa, o mesmo Charles Kupchan resume a questão do imaginário e impossível confronto entre a América e a não-Europa, de maneira simples e contundente: "Se se pergunta a um americano de vinte anos o que é que ele pensa da Europa, da França ou da Alemanha, ele arregala os olhos. A sua resposta não será nem "a favor" nem contra, mas: 'Estou-me nas tintas. Nada disso aparece no meu écran radar'".

Estamos informados, à americana, brutal mas seriamente: O Império não tem exterior. Também a Europa, nos seus impérios sucessivos, o não tinha. Nós não jogamos já (ou ainda) na mesma divisão. A América não nos vê como nós gostaríamos de ser vistos para crer que ainda contamos no mundo. A maior parte do nosso tempo útil - político ou culturalmente falando -, gasta-se a saber o que a América "quer" ou "pensa". Mas esta aparente distracção, ou distanciamento da América e, em particular desta de Bush, em relação às "Europas" é um engano cego e pouco ledo. A América encarrega-se de "pensar" a Europa e na Europa, até porque ela está nela, mas não como estava quando lhe servia de escudo na sua luta contra o império soviético (e vice-versa). Ela pensa na Europa, onde reinou desde 1945 a 1989, como pensa nela como pedra de xadrez ainda importante no tabuleiro mundial. E só isso lhe interessa.

Não estou certo que o ataque a Bagdad não tenha sido um ataque indirecto ao coração da Europa. As nações que ainda "são" Europa e conservam alguma lembrança dos seus fastos, assim o pensaram. De qualquer modo, o resultado foi esse mesmo. Já não ocupada (por culpa exclusiva nossa), a Europa dividiu-se com o ataque ao Iraque em "pro" e "anti-americana". A esse nível, responsável pelo sentimento novo de um fosso entre a América (esta) e nós, a divisão é artificial e não durará muito.

O verdadeiro fosso é de outra ordem: aquele que as eleições americanas, em que os europeus apostaram como se fossem deles, ilustraram. De um lado, uma Democracia que cultiva com paixão valores que não são hoje consensuais na Europa, no outro, uma Democracia fascinada pela mesma América que não fez mais que levar aos seus limites os valores da nossa modernidade, salvo os da laicidade, tal como a França a entende, mas que não tem já como horizonte nem a nação, por lhe ser exíguo, nem o império para que lhe falta dinheiro, ambição e vontade. É na América, consubstanciada com a sua aventura de tradição e perfil messiânico que hoje a Europa vive a História que inventou, e de que era o mais visível actor até há pouco, como encarnando aquele "espírito do mundo" de hegeliana evocação, onde a realidade e o sentido da aventura humana supostamente se confundem.

"Vae Victis". Ninguém venceu a Europa. Foi vencida por si mesma. Pode ressuscitar. No intervalo e tendo-se preparado para isso durante duzentos anos, uma jovem nação saída da Europa e sua freudiana filha, ocupará os lugares deixados vagos pela impotência da mãe, não menos imperialista do que ela, ilustrando a sua vontade do poderio passeando-se pela terra inteira, ou mais além, pelas estrelas. É aqui que todos somos americanos, mas devíamos estar atentos, pois enquanto nos oferecem as estrelas nas míticas noites de Natal dos seus filmes, devastam também a nossa comum e única terra. Que é onde todos estamos. Eles e nós. (texto lido a 23 de Novembro no VII Curso Livre de História Contemporânea, promovido pela Fundação Mário Soares e pelo Instituto de História Contemporânea da FCSH da Universidade Nova de Lisboa)
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