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2 perdidos numa noite suja

O próprio dispositivo cénico anuncia: um quadrado ligeiramente elevado, a sugestão do tapete de lona branca, quatro projectores nos ângulos, dois objectos, uma mala e um caixote de fruta, a marcar os cantos opostos. Quando entramos no teatro, e tal como vai acontecer em todas as mudanças de cena, os dois actores preparam-se, cada um num lado oposto do rectângulo, com movimentos bruscos e bem marcados, como no intervalo entre os diversos assaltos. Não há que enganar: estamos perante um ringue, e aquilo que se vai passar em cima dele é uma luta a dois, da qual só poderá sair um vencedor. Da qual só um poderá sair vivo.
É o novo espectáculo d’A Escola da Noite, 2 Perdidos Numa Noite Suja, um texto do brasileiro Plínio Marcos, que não disfarça a enorme carga ideológica própria do teatro interventivo dos anos 60. Mas o que a peça se prepara para revelar, e que a encenação da Sílvia Brito para este espectáculo tão bem põe em evidência, é que mesmo quando estão juntos do mesmo lado, errado, da barricada, cada um dos dois homens está sozinho. Sozinho, contra o outro e, nessa medida, contra ele próprio. No fundo da escala social (mas será também ao longo de toda ela?) não há consciência de classe, não há solidariedade na luta. Cada homem é sempre um lugar de solidão, de desespero e desumanidade. Mas será esse desamparo o resultado da exclusão ou é antes uma amaldiçoada condição humana?
Para além da cenografia e do texto, muito deste espectáculo, muita da sua força e da sua eficácia, repousa nos dois actores, Ricardo Correia e Carlos Marques, que conseguem emprestar à peça uma fisicalidade, um corpo (o corpo, dois corpos), que está sempre à beira de transpor aquele extremo em que o teatro toca a fragilidade da vida, da vida real, da vida que respira.
Tags: teatro
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