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Lá fui ao fim da tarde num saltinho a Aveiro, ver o De-Lovely. Não conseguia aguentar por mais tempo a ansiedade de saber que andava por aí um filme sobre a vida de Cole Porter, e com as canções sublimes do compositor, e eu sem ver. Cole Porter é uma das minhas ‘coisas’. Não é bem uma obsessão, nem uma mera colecção, não é daquelas coisas a que escolhemos dedicar a nossa vida, ou tão somente os nossos tempos livres. Não, não é bem isso. Na origem do meu ‘porterianismo’ está apenas gostar muito das suas canções, e à medida que fui conhecendo mais e melhor as canções, foi crescendo o meu gosto e a vontade de as conhecer ainda melhor. O meu grande desgosto de não saber tocar nenhum instrumento musical (nem sequer a voz) radica sobretudo no enorme desejo de poder tocar as canções de Porter, de as sentir por dentro, de as sentir com o corpo todo, e não apenas com os ouvidos. Tenho aí uma base de dados com canções do Porter que tenho cá em casa que, apesar de não ser actualizada há 7 ou 8 anos, tem mais de 250 entradas, ou seja, mais de 250 gravações de canções de Porter cá em casa. Um destes dias vou tentar actualizá-la, dá sempre jeito para tentar localizar alguma gravação, e sobretudo dá gozo saber quantas versões tenho de determinada canção.

Bom, quanto ao filme de Irwin Winkler. Começar por reconhecer que não é um grande filme, ou seja, não acrescenta prazer cinéfilo ao enorme prazer que são as canções de Porter. Não é que seja propriamente mau, mas pronto, não é um grande filme, à medida do talento das canções de Porter. E o ponto de partida desta biopic musical até nem era mau pensado: contado como uma sucessão de flashbacks, em que Porter, acompanhado por uma personificação um pouco dispensável da morte (um pouco como em All That Jazz, mas sem a acutilância amarga deste), vai revisitando através das suas canções o que foi a sua relação com a mulher Linda, e a maneira como essa relação marcou e foi marcada pela carreira de Porter enquanto criador de musicais mais do que propriamente enquanto escritor de canções. Aliás, aí reside, para mim, um dos pontos fracos do filme, a actividade de compositor de Porter é sempre representada no filme como mais um dos seus gestos elegantes e cheios de ‘debonnaire’, sem nunca se tentar ao menos esboçar o que possa ter sido a relação de Porter com a música, como é que ele funcionava como compositor, quais as suas pulsões e a forma como elas se manifestavam. Verdadeiramente nunca se vê Porter a compôr, mesmo quando a ideia seria essa, mas sempre Porter exibindo a sua elegância e a elegância das suas canções ao piano.
O casamento de Cole e Linda foi marcado por três factos: o estilo high society, bom vivant, dos primeiros anos, que marcaram a ascensão de Porter enquanto escritor de musicais; as crises motivadas pelas constantes escapadas homossexuais de Porter; e os dramas da doença de Porter na sequência de um acidente de equitação e o da doença de Linda. O problema é que o filme não é capaz de dar intensidade a estes acontecimentos, não os ‘sentimos’ verdadeiramente, como determinantes na vida daquelas personagens. Apesar de algum realismo nas caracterizações das personagens, nomeadamente na recusa do filme de resumir a vida de Porter, e do casal Porter, a uma sucessão de taças de champagne, focando os aspectos mais trágicos e infelizes.
Mas o que salva mesmo o filme, é claro, são as canções maravilhosas de Cole Porter, e não obstante estarem ausentes algumas das minhas preferidas. Mas a verdade é que o sonkbook de Porter é tão extenso que seria impossível dar lugar a todas as canções. Além disso, e pela própria estrutura do filme, compreende-se que tenham sido escolhidas aquelas canções a que poderia ser dado maior relevo narrativo, ou seja, aquelas que melhor serviam a estrutura narrativa do filme, ajudando a contar a história.
Destaque ainda para os actores: a composição de Kevin Kline é brilhante, e Ashley Judd cumpre o seu papel de musa inspiradora de Porter.
Tags: cinema
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