miguel (innersmile) wrote,
miguel
innersmile

confidencial

A primeira grande diferença desta coreografia de Olga Roriz para as duas anteriores que eu vi (Jump-up-and-kiss-me e Pedro e Inês), é que ‘Confidencial’ parece não ter, como ponto de partida, um programa, um objectivo, uma ideia que é preciso desenvolver. A principal consequência é que este espectáculo parece muito mais livre, muito mais espontâneo do que os anteriores. Há princípios, diríamos quase que valores, que se vão desenvolvendo ao longo de espectáculo (as repetições, uma certa ideia de representação ou mesmo de caricatura, a exploração do burlesco), mas cada quadro é sempre uma experiência, é sempre uma proposta com o seu quê de aventureiro, é, sobretudo, sempre um risco. É essa a segunda grande diferença deste espectáculo para os dois anteriores de Roriz, uma dose de risco muito grande, um desafio que se renova a cada quadro, e que se coloca à encenadora, mas também ao público. A terceira grande diferença é que, pela primeira vez, Roriz não cede a uma certa ideia, mais ou menos institucional, de gosto, ou de bom gosto, e vai por aí à procura do seu gosto individual, à procura de uma ideia de estética que recusa o padrão para se firmar nas mais radicais escolhas individuais e subjectivas. O que, por seu lado, é um factor de risco acrescido.
Só estes três factores distintivos bastariam para particularizar esta criação de Olga Roriz, mas a eles acrescentam-se três outros que são valores seguros na encenadora. Desde logo, a omnipresença da temática amorosa, do amor espiritual e do amor carnal, o amor como o lugar do desejo, da atracção como da obsessão. Todos estes quadros são, ou podem ser, variações de uma certa ideia de encontro amoroso, um pouco à maneira de jump-up-and-kiss-me.
Outra das características seguras em Roriz, e que neste espectáculo, mais uma vez, ganha um fulgor maior, é a escolha dos trechos musicais que ajudam a contar a história, mais do que a ilustram ou servem apenas de fundo musical à dança. O ponto de partida da dança é sempre, como eu li já não sei onde, o amor pela música, a vontade de ser música. E isso é tão evidente no trabalho de Olga Roriz, e no caso de ‘Confidencial’ em que o repertório musical é também um percurso de pesquisa e descoberta.
Finalmente, outra das marcas mais seguras da dança de Roriz: uma forte ideia de coreografia, de ocupação do espaço cénico, sendo a própria disposição dos corpos no espaço denso do palco já um factor de intensidade, uma linguagem primordial à própria ideia de espectáculo. Neste caso, ainda mais, porque não há um dispositivo cénico pré-definido, não há aquilo a que chamamos um cenário, e o espaço vai-se ocupando e construindo e despojando e esvaziando à medida dos quadros e da sua sucessão. Sempre com uma noção de cena que é, para não exagerar, genial. Desde o quadro inicial, em que os bailarinos aparecem pendurados do tecto em panos negros que lhes envolvem os tornozelos enquanto lêem livros que seguram à medida que rodam lentamente, até ao deslumbrante quadro final, que deve ser das coisas mais fortes e incrivelmente belas que eu já vi num palco: de um monte de malas de viagem dispostas à boca de cena (na verdade, 40 malas; 40 é o número de que se faz este espectáculo: 40 bancos, 40 baldes, 40 ramos de flores, 40 malas) que os bailarinos vão abrindo, enche-se o palco de penas brancas, que flutuam pelo ar e vão formando um tapete espesso e esvoaçante, num efeito estético de cortar a respiração, quase uma visão do que deve ser o próprio céu, lá por cima das nuvens.
Pelo risco, pelo tom humorado (vi todo o espectáculo, e são mais de duas horas e meia, sempre muito divertido, sempre com um sorriso de felicidade), pelo prazer intenso, pelo erotismo que em Roriz é sempre uma pulsão muito forte mais do uma representação, pela beleza indescritível e profunda, este foi o meu espectáculo preferido de Olga Roriz e um dos melhores espectáculos de dança que eu já vi. Que eu já vivi, ia-me a fugir o teclado.
Tags: dança
Subscribe

  • 18

    Comecei a escrever este diário online no dia 30 de Julho de 2001. Durante 16 anos, escrevia sempre nesse dia um texto de reflexão sobre o próprio…

  • azul velho

    Esta foto tem mais de 11 anos, foi feita em Março de 2008 na piscina de um resort em Hoi An, no Vietname, por um outro hóspede que eu não…

  • agosto

    Estive mais uma vez internado no hospital, desta vez para tirar o rim direito. Ou seja, neste momento não tenho rins nem bexiga, e comecei a fazer…

  • Post a new comment

    Error

    default userpic
    When you submit the form an invisible reCAPTCHA check will be performed.
    You must follow the Privacy Policy and Google Terms of use.
  • 7 comments