miguel (innersmile) wrote,
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O Regresso

É sempre complicado dizer o que seduz tanto em filmes como este O Regresso, do russo Andrei Zvyagintsev, a história de dois irmãos que vivem com a mãe e a quem, um dia, regressa um pai desconhecido após uma ausência de mais de uma dezena de anos. De certa forma, o filme organiza-se como um thriller, em que os filhos são arrastados pelo pai para uma ilha a fim de resgatar um tesouro escondido, e que nós nunca chegamos a saber do que se trata, nem a razão porque o pai convoca os filhos desconhecidos para essa busca. Se o mais velho dos dois irmãos aceita a presença do pai com entusiasmo, é ao filho mais novo que cabe rebelar-se contra o autoritarismo paterno, pôr em causa essa autoridade recém adquirida, e provocar a tensão que vai mantendo o filme num nível de suspense razoável, em que a emanência da tragédia está sempre presente. Na ilha, já depois de recuperar o seu tesouro (ou o seu segredo) o pai morre em consequência de uma disputa com o filho mais novo. Há então uma certa inversão de papeís, e o irmão mais novo como que se submete à capacidade organizadora e de liderança do irmão mais velho, numa espécie de submissão à figura paterna de substituição.
Como se vê, há muitos elementos em jogo que convivem com o desenvolvimento da trama mais caracteristica do thriller, e que se por um lado dão densidade e textura ao filme e aos personagens, por outro retiram-lhe alguma legibilidade, alguma transparência, que torna difícil a sua apreensão.
O tom narrativo é de uma grande contemplação, servida por um elevado grau de apuro estético. Este é seguramente um dos filmes mais belos que se tem visto ultimamente, com os planos a sucederem-se com um rigor plástico muito apurado. A música ajuda também a dar um tom de beleza triste e depurada ao filme.
Tags: cinema
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