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lanças nuas

O poema intitula-se CERTIDÃO DE ÓBITO, e Rui Knopfli publicou-o num livro de 1964, Máquina de Areia. As guerras nas colónias sob administração portuguesa tinham apenas começado, e demorariam mais dez anos até chegar esse dia em que o império iria embalar os seus desmantelados restos num contentor e zarpar. E no entanto este poema lê toda essa realidade por vir: a da guerra, a do fim dela, a do êxodo. Como se fosse um programa para os dez anos da história que se seguiriam: da história de um, de dois países, e também a história pessoal do poeta, e a de todos nós que vivemos trémulos nas linhas clarividentes e lúcidas de uns versos.


Um tempo de lanças nuas
espera por nós, riso
cruel de maxilas em riste.
Entanto a vida desabrocha
tenra e tépida,
fruto e flor na ânsia secular
de quem tanto esperou em vão.
Para nós, todavia,
o tempo é de lanças impiedosas,
de lâminas em cuja brancura
se adivinha já um indício
do nosso sangue. Deste tempo
sobrou-nos a acerado das lanças:
este o quinhão ácido que nos coube
e que mastigamos resignadamente.

Entanto, num levedar de ternura,
frágil e muito bela, a vida desponta
na negra polpa de outros dedos.
Para nós, o prémio do aço,
a estrela da pólvora, a comenda do fogo.
Para nós a consolação do sorriso triste
e da amargura sabida. Falamo-nos
e nas palavras mais comuns
há rituais de depedida. Falamos
e as palavras que dizemos
dizem adeus.
Tags: citações, knopfli
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