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tell me a story

TELL ME A STORY
O que mais me fascina nas fotografias da lightstripping é o seu forte pendor narrativo. É como se cada foto contasse uma história: cria um personagem, insere-o num determinado contexto (nomeadamente espacial), e mostra-nos uma fatia, muito fina, dessa história. Um momento decisivo, em que o destino do personagem se joga, um pouco à maneira dos contos do Raymond Carver. Mesmo quando uma determinada foto se insere numa série (Os Sapatos, As Asas, por exemplo), cada uma das fotos dessa série conta-nos uma história diferente (mostra-nos como um pequeno detalhe, uma pequena variação, muda o destino do personagem).
Naturalmente que essa carga narrativa vem muito da presença constante da figura humana. São fotografias de pessoas (mulheres e crianças, principalmente). Mesmo quando não está lá representada, é sempre a marca humana que imprime o essencial da fotografia. Há, por exemplo, uma fotografia de um gato, em que é evidente a presença de alguém que prende a atenção do animal, e que, de certa forma, é essa pessoa ausente o verdadeiro objecto da fotografia. Na foto intitulada "3", são gritantes as marcas da passagem humana naquele espaço de encontros e desencontros que é cabine telefónica. Há uma foto em que a presença do humano subsiste num farol quase totalmente escondido por um dramático volume de azul.
Mas se a presença da figura humana é determinante nas fotografias, a sua carga narrativa ultrapassa a mera figuração. Tratando-se de fotografias encenadas, essa carga narrativa reside, fundamentalmente, nos pormenores que "preenchem" o campo visual, no seu apuro técnico (enquadramento, exposição, nitidez, jogos de luz e sombra), na particular "pose" do modelo. Nas três fotografias da série do corredor de aço e vidro, a intensa carga narrativa da segunda foto advém, não apenas da presença da figura humana, mas do pormenor, em esbatido, da ligeira inclinação da cabeça, e do braço direito levantado, presume-se que de encontro ao peito.
Tematicamente, as fotografias parecem questionar, permanentemente, o corpo humano (o corpo da mulher, em primeiro lugar) e a relação que estabelece com a lente. Ou seja, aquele corpo sabe que está a ser fotografado, e o essencial de cada foto está na forma como o corpo se "oferece" à câmara, ou melhor, como ele se "deixa" olhar pela câmara. Neste sentido, revela-se a presença de um narrador, de alguém que medeia a relação entre o nosso olhar e o objecto desse olhar.
Mas é na sua capacidade de criar ficções, de as suscitar em quem olha, e na "instantaniedade" e eficácia com que o faz, que as fotos da lightstripping distinguem e ultrapassam. A fotografia da estação de metro é, nessa medida, e a meu vêr, paradigmática desse potencial narrativo. Tell me a story, título de uma das fotos, parece ser, afinal, a substancial mensagem destas fotografias.
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