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rua lourenço almeida azevedo

RUA LOURENÇO ALMEIDA AZEVEDO

Chega-te aos dedos o mês de Junho, toca-te os pés como um cordeiro, uma onda mansa que viesse morrer ao lancil.
A rua tem duas casas, e tu tens de saber em qual delas moras.
Há a casa que fica para lá das árvores, a casa do céu azul sobre o parque, sobre as quintas, sobre os campos ao redor da cidade. Um céu azul onde se recortam as asas dos milhafres às primeiras horas da manhã. Dois milhafres que lutam no céu por cima das árvores, azul o céu sobre o choro verde da copa das árvores, e tu, eventualmente só tu, saberás porque mistérios lutam. Trazes contigo os despojos dessa luta, morrerá contigo a manhã, levada pela incandescência do meio-dia a bater de chapa nos degraus da Praça.
E há a outra casa, essa que se abre à tua frente como um tapete azul. Mergulhas uma única vez no mar das flores dos jacarandás que tombam sobre ti como sereníssima chuva. Esta é a casa que bebes em travos de frescura, quando procuras, ou te procuras, nas sombrias horas da tarde. Sobes ou desces a rua, tanto faz. Sempre o teu movimento parece o fluxo da maré quando espreitas a rua que se estende como uma princesa.
Antes que a noite te perca, escolherás a tua casa. Em ambos os lados da rua.
Tags: contos
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