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anjos e timbilas

Concerto ontem à noite, no TAGV, dos Timbila Muzimba, um colectivo de 10 músicos do sul de Moçambique, que, graças a uma relação de colaboração com o Acert, de Tondela, gravaram um disco em Portugal (‘Conta Própria’, que eu comprei ontem, mas ainda não ouvi) e estão a meio de uma digressão europeia que, só em Portugal, inclui 14 concertos.
Algumas das coisas que tornaram este concerto especial. Desde logo, a energia dos TM em palco, misturando uma batida fortíssima com uma explosão de dança. A música dos TM é essencialmente percussão e voz, com lugar de destaque para as três poderosas timbilas, uma espécie de xilofone com cabaças a fazer as caixas de ressonância. Outro aspecto interessante é o facto de a música dos TM ter muitas influências da música tradicional, e, o que é pouco frequente, de inspiração sobretudo rural. Normalmente, a música de Moçambique que vamos conhecendo é sobretudo de raiz urbana. O trabalho que os TM têm desenvolvido da sua estadia em Portugal, inclui uma colaboração com o Júlio Pereira, que participou no espectáculo de ontem, a tocar bouzouki. A mistura do som melódico e ‘fino’ deste instrumento de cordas com a bateria infernal dos TM é, como se imagina, muito especial, até porque parte de uma espécie de incompatibilidade natural entre os dois universos musicais. O contraste resulta muito bem, e há duas ou três passagens de grande efeito e beleza, ainda que nos ritmos mais fortes o bouzouki seja demasiado ‘delicado’ para acompanhar a batida desenfreada. Finalmente, destaque para a natureza amadurecida do projecto, que investe, e nem podia ser de outra maneira com o destaque dado à dança, na presença cénica, e num cuidado de produção que revela a ambição musical e profissional dos TM.

Entretanto, cheguei a casa e estive a ver o último episódio de Angels in America, que resolve, com uma certa candura, o destino dos seus personagens principais, quer dos reais, quer dos anjos, fantasmas e afins. Como se depois do inferno viesse sempre a primavera, ou, visto de outro lado, se ao inverno se seguisse sempre o purgatório. Gostei muito da série, mais pela qualidade do texto e pela não convencionalidade da narrativa, do que propriamente pela reflexão que propunha fazer sobre o surgimento da Sida e o seu impacto, digamos assim, na paisagem social e cultural norte-americana. É em todo o caso um marco na ficção televisiva, quer pelo tema, quer pela forma um pouco radical, embora sem esquecer que estamos a falar de televisão mainstream, ou seja, de indústria de entretenimento, como investe numa linguagem televisiva pouco comum. Está gravado, e é para ir revendo.
Tags: cinema, concertos
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