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the crown
rosas
innersmile
Houve aí uma altura em que se dizia que o cinema tinha perdido vitalidade e que a sua capacidade de reflectir a vida se tinha passado para as séries de televisão. Hoje em dia, com o aparecimento e a diversificação das plataformas que disponibilizam conteúdos audiovisuais, por assinatura, já não tenho a certeza de que isso ainda seja verdade. A maior parte das séries que encontro nessas plataformas são pobres, quer do ponto de vista dos valores de produção quer do ponto de vista narrativo. Mas há exceções.

E uma delas, de que acabei de ver as duas temporadas já produzidas, é The Crown, cujo tema é, grosso modo, o reinado da Rainha Isabel II, de Inglaterra. A série foi escrita por Peter Morgan, o mesmo autor que escreveu, aqui há uns anos, o filme The Queen, que deu um Oscar a Helen Mirren precisamente no papel de Isabel II. Entre a equipa de realizadores está o Stephen Daldry, que tem no currículo filmes como Billy Elliot, As Horas ou O Leitor.

A série está de facto muito bem escrita, tentando ser o mais fiel possível à verdade da História, mas não desperdiçando as oportunidades de conflito. O retrato psicológico de Elizabeth tem densidade e, principalmente, ajuda a caracterizar não apenas a sua personalidade, mas o modo como encarou a responsabilidade que lhe calhou e a marca que quis imprimir ao seu reinado.

Para além de muito bem escrita, a série tem um elevado valor de produção, ou seja, teve grandes recursos e soube utilizá-los muito bem. Como se vê logo pelas escolhas do elenco, mas também por muitas outras razões: as escolhas dos sets, a qualidade dos cenários exteriores, a preocupação e o rigor das reconstituições dos interiores.

Para além de nos mostrar o que é a vida das realezas lá nos altos palácios onde habitam, a série traça de igual modo um retrato muito eficaz de como se fazia política em Inglaterra nos anos do pós-guerra (e que em muitos aspectos se mantém actual). E ainda, numa espécie de reflexo do reflexo, do que era vida da classe média inglesa, ainda que, na série, ela seja apenas entrevista, um pouco desfocada, através dos vidros nem sempre muito transparentes das janelas dos automóveis de luxo.
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