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o seminarista, persona
rosas
innersmile
Aproveitei o fim de semana passado para pôr leituras em dia. Terminei um livro, li outro (ok, tinha muito poucas páginas) e comecei a leitura de um terceiro que já estava há anos cá em casa à espera de vez (mas deste falarei noutra ocasião).



O Seminarista é mais uma obra-prima do grande, enorme, Rubem Fonseca, a história de um assassino profissional, ex-seminarista, que decide aposentar-se por amor. Como sempre, a escrita de RF é soberba, uma coisa monumental, cuja leitura proporciona um prazer quase sensual. E como é igualmente habitual no autor, o calão mais desbragado convive com a mais elevada erudição, o gore vive paredes meias com a sofisticação.



Entretanto no fim de semana reli Persona, uma breve coleção de três contos, da autoria de Eduardo Pitta. Acho que é o meu livro preferido do autor, e é uma lição da arte de bem escrever prosas curtas. A escrita de EP, a sua vocação natural para fazer frases muito sintéticas e muito cheias de informação, torna-se uma verdadeira arte de escrever narrativas curtas.
Estes três contos têm muito em comum, a começar pelo personagem, Afonso Sacadura, e representam três momentos do seu crescimento, constituindo-se numa espécie de coming-of-age, começando pela adolescência e terminando na prestação do serviço militar, no teatro da guerra colonial.

De resto, a ligação a Moçambique é outra das razões porque gosto tanto deste livro. Em particular no último dos três contos, mais extenso e desenvolvido, e onde o autor nos dá um fresco bastante completo do que era a vida quer em Lourenço Marques, quer em duas outras cidades a que estou muito ligado, Nampula e a Ilha de Moçambique. Tratando-se de verdadeiras narrativas “à clef”, e apesar de eu ser um miúdo no tempo em que elas decorrem, creio mesmo que consigo identificar uma das personagens, quer por memórias minhas quer por histórias que ouvia contar aos meus pais.

Comprei este livro em 2001, na primeira edição da Angelus Novus, e que me lembro foi muito difícil encontrar. Eu já conhecia o nome do autor sobretudo dos artigos sobre poesia que escrevia na revista Ler, ainda no seu formato antigo, uma revista volumosa, com um grafismo muito sóbrio, quase sem publicidade, e que saía quando saía. Depois dessa primeira leitura, tenho relido mais vezes o livro, sempre com muito e renovado prazer e interesse. Foi entretanto feita uma nova edição, mas que infelizmente não comprei, pois creio que tem alterações em relação à primeira. Como comecei por referir, são absolutamente exemplares estes três contos, da arte de escrever narrativas curtas.

Vale a pena ler este post sobre o livro no blog Há Sempre um Livro: https://hasempreumlivro.blogspot.pt/2013/10/persona-de-eduardo-pitta-quidnovi.html