November 14th, 2017

rosas

nada tem já encanto



Foram este ano editadas duas antologias com poemas do Rui Knopfli. Infelizmente, uma delas, intitulada Uso Particular, e publicada pela editora Do Lado Esquerdo, não consegui encontrar à venda nas livrarias, acho que para ser adquirida tem de ser encomendada à editora. A outra foi publicada pela Tinta da China, e intitula-se Nada Tem Já Encanto, o responsável da antologia foi Pedro Mexia, e traz um excelente prefácio de Eugénio Lisboa, que nos ajuda a situar a poesia de Knopfli.

Fico muito feliz com este redobrar de atenção pela poesia de RK, e só espero que, deste modo, haja mais gente a conhecê-la. Knopfli é um dos meus poetas favoritos. Tenho vários dos seus livros, entre eles o volume de poesia completa que foi, há uns anos, publicada pela Imprensa Nacional Casa da Moeda. Tenho também, com muito orgulho, um exemplar d’ A Ilha de Próspero, que Knopfli publicou com poemas e fotografias suas dedicadas à Ilha de Moçambique, e aquela que creio ser a primeira edição d’ O Monhé das Cobras, que encontrei uma vez, por acaso, numa livraria de Portimão, quando estava lá a passar férias.

Sempre me lembro de o nome de Rui Knopfli ser familiar, uma espécie de património, se não da cidade de Lourenço Marques, pelo menos da minha família, sobretudo por via da minha mãe, que me falava dos seus poetas como quem conta histórias de reis e rainhas. O primeiro livro que li do autor foi Mangas Verdes Com Sal, que já tinha sido publicado anteriormente, mas que eu conheci numas férias que passei em Lourenço Marques logo a seguir ao 25 de Abril. Mas confesso que nunca aderi por completo à sua poesia, até à leitura de O Monhé das Cobras, que foi um livro que me tocou imenso, que falou comigo e me disse coisas que foram determinantes. Com o Monhé das Cobras reconheci um certo padrão de relacionamento com a nossa memória de Moçambique e de Lourenço Marques, que de certa maneira era o da minha mãe e veio também a ser o meu.

O coup-de-foudre definitivo deu-se a seguir à minha ida a Moçambique, em janeiro de 2003. Mal regressei fui ler o que tinha de Knopfli e então sim, os seus poemas revelaram-se-me inteiramente. Nesse ano saiu a Obra Poética, que passou a constituir uma espécie de bíblia pessoal, a minha arte poética. Fiz um blog onde, entre outros poetas e escritores moçambicanos, divulguei muitos dos seus poemas.

Acho que foi apenas depois dessa experiência em Moçambique que fui capaz de compreender a sua poesia, ou melhor, de lhes dar um sentido que fosse meu. Lermos um poema que não apenas nos decifre o mundo, mas ainda que nos ajude a compreendermo-nos melhor, a conhecermo-nos. Um poema que nos revele a nós próprios.