blade runner 2049
rosas
innersmile
Fui ver o Blade Runner 2049 um bocado de pé atrás, com receio de que a sequela tivesse dado cabo daquilo que o BR tinha de melhor, e que era aquela distopia muito zeitgeist, muito ancorada no mundo como ele é hoje, com uma atmosfera muito pesada e sombria.

Mas a sequela de BR, realizada por Denis Villeneuve (cujo primeiro filme que vi foi uma adaptação do Homem Duplicado, de José Saramago), mantém tudo o que de bom tinha o filme original de Ridley Scott, e que o transformaram num dos maiores filmes de culto da actualidade.

E a mais valia do filme começa logo no próprio conceito da sequela. Em vez de se tratar de um mero pretexto para recriar mais do mesmo, como é normalmente o caso, BR 2049 pega na história original e leva-a mais além, cria um universo temporal que está tão distante do momento actual como o filme original estava do momento em que foi feito, e conta-nos de facto uma história que se passa trinta anos depois da anterior e que é, digamos, a projecção dela.

Como já referi, 2049 mantém o tom dark e pesado de BR, uma narrativa lenta, em que o plano da ficção científica está ao serviço da história, à qual interessa muito mais dar corpo e expressão às inquietações e aos dilemas éticos e filosóficos, do que propriamente a uma sucessão de cenas de acção e de aventuras.

Uma das razões que tornam a distopia de BR 2049 tão apelativa é, como acontece com todas as distopias que têm essa vocação filosófica, estar muito colada ao mundo tal como o conhecemos e vivemos. E para isso contribui o futurismo de BR que parece estar apenas um passinho à frente do actual estado de desenvolvimento tecnológica, em especial no que toca às tecnologias de informação. Tal como o cenário de catástrofe ecológica do filme não anda longe dos problemas que enfrentamos hoje em dia em relação à saúde, ou à falta dela, do nosso planeta.

Por outro lado, os problemas que estão no cerne da trama de BR, e que é uma espécie de guerra entre duas espécies, a dos humanos e a dos replicantes, e que em 2049 passa especialmente por indagar da capacidade reprodutora dos replicantes, são especulações de alguns dos debates éticos que atravessam a sociedade actual, nomeadamente os limites da inteligência artificial ou das ciências reprodutoras da vida.

E é esta capacidade que BR, tanto o original como agora a sequela, tem de reflectir, como um espelho especulativo, o mundo tal como o vivemos actualmente, fazendo-o com um acentuado e justificado pessimismo, que tornam a sua distopia tão irresistível quanto perigosa.

Já se sabe que Harrison Ford participa no filme, tendo a sua personagem, o blade runner do primeiro filme, uma relevância decisiva nesta nova história. Ryan Gosling é o novo blade runner, K, ele próprio um exemplar “sharply designed” de um replicante com o estrito propósito de encontrar e neutralizar modelos antigos e disfuncionais. A propósito, saí do cinema a pensar que o RG é um dos actores, se não o actor mais importante do momento no cinema norte-americano, porque consegue conjugar muito bem a escolha de um repertório de qualidade e que lhe dá prestígio enquanto actor, com a popularidade do box-office, e ainda com um sentido notável de escolha de filmes que são importantes do ponto de vista do próprio desenvolvimento da indústria. E é engraçado porque vendo-o trabalhar uma pessoa não consegue muito bem decidir se ele é um actor brilhante, cheio de densidade e subtileza, ou se, pelo contrário, não passa de um proverbial “cepo”.

On a side note, duas coisinhas: a primeira é que depois de muitos meses sem ir ao cinema, tenho tirado a barriga de misérias, aproveitando a primeira matiné em que as salas estão quase vazias. A outra notinha é para dizer que um tipo tentar almoçar uma refeição ligeira, antes do cinema, no centro comercial em dia de cortejo dos caloiros, transforma o pesadelo distópico de BR no mais tranquilo dos paraísos.
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