al berto
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Al Berto, o filme de Vicente Alves do Ó que toma como título o nome do poeta de O Medo, tem um problema, que é, na minha opinião, o realizador ter entre mãos demasiado bom material, e ter pena de o desperdiçar. E o problema reside no facto de o filme nunca se decidir muito bem por qual das histórias querer contar.

Numa primeira camada, Al Berto é a história de um romance gay entre duas personagens incandescentes e um pouco incontidas: um homem jovem mas já vivido, com rodagem feita numa grande capital da Europa, que se fixa numa vila do litoral alentejano e se apaixona por um outro homem, igualmente jovem, mas que nunca saíra da referida vila, apesar de ter em si, para parafrasear outro poeta, todos os sonhos do mundo, sobretudo os literários.

Outra história que se sobrepõe à primeira é a da referida vila alentejana nos anos da brasa a seguir à revolução de abril, bastião comunista desde o tempo do combate à ditadura. Alberto e João Maria, os dois protagonistas do romance anteriormente anunciado, são oriundos de duas das famílias importantes da vila, embora de filiação oposta: um é filho de proprietários, outro de comunistas. Neste sentido, o filme é uma história de família, que é a do próprio realizador que, assim, também aparece como protagonista do filme.

Finalmente, há uma história de conflito de gerações, com a mais valia de se passar num período já de si de grande agitação política e numa zona a experimentar os efeitos transformadores e muitas vezes perturbadores da monumental construção do complexo industrial e petroquímico: a chegada à já não tão pacata vila alentejana, de uma comunidade hippie, de sabor libertário e literário, que intercala serões de poesia com festas desbragadas, que se passeia pelas ruas da vila, que assiste divertida e subversiva aos comícios e às procissões, que ocupa um palácio expropriado e que tem as portas abertas a toda a gente, que abre uma livraria especializada em poesia e que não alinha nos cânones políticos da época. E que no fim, é despejada e corrida literalmente à paulada.

Esta última história é, na minha opinião, aquela que o filme conta de forma mais eficaz e onde ele, digamos assim para simplificar, é mais interessante e conseguido. A primeira, do romance gay, achei um pouco rala de mais, pouco densa, quer do ponto de vista narrativo quer da psicologia das personagens.

A história da família é, de certo modo, a mais frágil do filme e também a mais prejudicada pela economia do próprio filme, resultando um pouco confusa. Provavelmente porque daria mais material para um filme documentário do que para uma narrativa mais ficcional, ainda que de carácter biográfico. E é pena, porque me pareceu, das três, a história com maior potencial de conflito e tensão narrativas, a que é mais distintiva e única. Foi também nesta história onde me pareceu que o realizador teve mais dificuldade em lidar com a quantidade de material que tinha entre mãos, e não resistiu a “meter” no filme demasiados pormenores que, à falta de contextualização e dimensão narrativa, resultam um pouco confusos. Eventualmente, essa confusão será apenas para quem não conhecia já essa história e as dos seus protagonistas

Apesar do que foi dito, acho que o interesse do filme se mantém intacto, e esta aproximação à vida e à pessoa de Al Berto é não só extremamente válida, como muito cativante, capaz de entusiasmar os que conhecem e amam a sua obra, e de atrair para o seu universo novos leitores. E para isso muito contribui o desempenho de Ricardo Teixeira no protagonista. Mais do que qualquer tentativa de emulação, o que realizador e actor fazem é criar uma persona que é credível, uma leitura convincente e que funciona com eficácia narrativa.

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