June 21st, 2017

rosas

vitória



No domingo, fiz a viagem de regresso a casa sob um calor imenso. É verdade que escolhi viajar à hora de maior calor, mas preferi regressar mais cedo e evitar o trânsito de final de mini-férias que se faria sentir mais ao final da tarde. Além disso, fiz a viagem sob uma certa tensão, por causa do clima de tragédia que se vivia no país, ansioso por chegar a casa, e pôr-me a salvo de uma certa noção, psicológica mais do que real, de perigo.

Mas foi uma viagem tranquila. Ouvi três discos ao longo dessas quase cinco horas de viagem (com duas paragens, uma para meter combustível, em pleno Alentejo, e outra para almoçar). Primeiro, o Vestida de Nit, da Sílvia Pérez Cruz, que se confirmou um disco belíssimo, com arranjos fantásticos para quinteto de cordas, e onde a Sílvia apresenta um lote de excelentes canções, entre elas algumas versões muito originais. Já tinha ouvido o disco, é claro, e várias vezes, mas ainda não nestas condições que eu adoro: sozinho, a conduzir o automóvel, sem interrupções do princípio ao fim (só repetindo algumas canções), concentrado na música, mas também atento à estrada e ao que se ia passando à minha frente.

Os outros dois discos foram habitués. O disco do encontro entre Vinícius de Moraes e Amália Rodrigues, em Lisboa, em 1967, a gravação de um serão em casa da fadista, com poesia, samba e, naturalmente, muito fado. É um dos discos da minha vida, está presente desde que eu era criança e sempre sempre o ouvi. O outro foi o cd da Marisa Monte, O Que Você Quer saber de Verdade, um disco que entrou recentemente na minha vida, mas que ocupa um lugar muito prazeroso, com um lote de canções pop daquelas que parece que co/a/ntam a nossa vida.

A propósito destes discos, fiquei a pensar no lugar que ficamos a ocupar nas vidas uns dos outros, depois de sairmos delas. Se oferecemos a alguém um fado da Amália, ou seja, uma coisa completamente intangível, que vive apenas da intenção, do gesto imponderável, que espécie de reverberação, se alguma, essa coisa fica a emitir nessa vida que se perdeu da nossa? E esse fado da Amália, mudou alguma coisa pelo facto de um dia o termos oferecido a alguém? Ainda é nosso? E de que maneira? Todo ele? Mais ou menos, do que já era?

Os dias lá em baixo foram, apesar do calor e da minha dificuldade em lidar com ele, muito bons. Tranquilos, no aconchego da amizade, com belas refeições, os meus sobrinhos-netos que estão sempre mais famosos (o meu baby mais novo já diz uma palavra em alemão, um espectáculo), e uma coisa que me soube tão bem: a companhia de um cão, no caso, de uma cadela: meiga, mimalha, esperta, brincalhona. Apaixonamo-nos mutuamente. Foram uns dias de férias deliciosos. Foram as férias com a Vitória.