April 26th, 2017

rosas

grigory solokov

Extraordinário recital de Grigory Solokov, sábado à noite no grande auditório do Convento de São Francisco (a minha segunda visita ao local). Primeiro pela própria circunstância: não é todos os dias que temos possibilidade de assistir, aqui mesmo ao pé de casa, à performance de um dos mais ilustres pianistas da actualidade, por muitos considerado o maior pianista do nosso tempo. Esta ocasião vai assim para a minha coroa de grandes glórias, como ter assistido a concertos de Alfred Brendel ou de Andreas Scholl.

Depois o programa foi magnífico: duas Sonatas e uma Fantasia de Mozart, e duas Sonatas de Beethoven. Neste caso, duas obras tardias de Beethoven, que eu já conhecia, em particular uma delas, a Sonata n.º 32 (opus 111), que é das minhas preferidas, nomeadamente o primeiro andamento, e que Solokov tocou de forma sublime, pelo menos tenho ideia de nunca a ter ouvido assim desta maneira tão arrebatada, e até espontânea, dava ideia de que a música estava a nascer ali naquele momento, a ser criada à medida que Solokov ia tocando.

Extraordinário, ainda, pelo final: Solokov fez seis bis, de cada vez que era chamado ao palco, sentava-se ao piano e tocava mais uma peça. Foram três horas de concerto, eu nunca tinha assistido a uma coisa assim.
rosas

jonathan demme, rip

Jonathan Demme, cuja morte foi hoje anunciada, não foi propriamente um realizador prolixo, e, apesar de eu ter visto um dos primeiros filmes que fez, o Something Wild, e um dos últimos, Rachel Getting Married, não foram muito mais os seus filmes que vi. Mas bastavam três filmes para se tornar um realizador marcante e absolutamente inesquecível.

Falo, claro, em primeiro lugar, de The Silence of The Lambs, o filme que, de maneira um pouco inesperada, arrebatou os chamados Big Five nos Oscars da Academia: melhor filme, melhor realizador, melhor argumento adaptado, melhor actor e melhor actriz! E digo que foi inesperado, dado que era uma produção relativamente independente e o género em que se insere, o terror, não é muito dado a prémios do mainstream, mas completamente justificado. O filme é estupendo, as personagens são daquelas que ficam para sempre, a realização é meticulosa e perfeccionista, os diálogos são daqueles que apetece sublinhar.

Outro dos filmes marcantes de Jonathan Demme foi Philadelphia. Talvez não seja um filme tão fascinante como o anterior, mas teve uma importância histórica determinante, ao trazer para a ribalta de Hollywood, e, mais uma vez, para a glória dos Oscars da Academia, o tema da Sida e o seu impacto na comunidade homossexual, quando isso ainda constituia um forte tabu.

Finalmente, o outro filme brilhante de Demme, foi um dos primeiros que realizou, em 1984, e que eu,, apesar de o conhecer desde essa altura, só recentemente tive oportunidade de o ver projectado num ecrã grande. Refiro-me a Stop Making Sense, o filme-concerto-documentário que Demme fez com David Byrne e os Talking Heads. Demme conseguiu com sucesso total dar ao filme aquela característica que, na minha opinião, faz dos Heads, e de Byrne, artistas muito distintivos: a mistura perfeita entre a pop e a arte, entre a obra cerebral que nos estimula o intelecto, por um lado, mas com um inegável apelo à dança e à fruição, à libertação e à entrega.

edit: o David Byrne escreveu no seu diário online um testemunho de memória e homenagem a Jonathan Demme. Vale a pena ler em: http://davidbyrne.com/journal/jonathan-demme-rest-in-peace .