?

Log in

No account? Create an account

grigory solokov
rosas
innersmile
Extraordinário recital de Grigory Solokov, sábado à noite no grande auditório do Convento de São Francisco (a minha segunda visita ao local). Primeiro pela própria circunstância: não é todos os dias que temos possibilidade de assistir, aqui mesmo ao pé de casa, à performance de um dos mais ilustres pianistas da actualidade, por muitos considerado o maior pianista do nosso tempo. Esta ocasião vai assim para a minha coroa de grandes glórias, como ter assistido a concertos de Alfred Brendel ou de Andreas Scholl.

Depois o programa foi magnífico: duas Sonatas e uma Fantasia de Mozart, e duas Sonatas de Beethoven. Neste caso, duas obras tardias de Beethoven, que eu já conhecia, em particular uma delas, a Sonata n.º 32 (opus 111), que é das minhas preferidas, nomeadamente o primeiro andamento, e que Solokov tocou de forma sublime, pelo menos tenho ideia de nunca a ter ouvido assim desta maneira tão arrebatada, e até espontânea, dava ideia de que a música estava a nascer ali naquele momento, a ser criada à medida que Solokov ia tocando.

Extraordinário, ainda, pelo final: Solokov fez seis bis, de cada vez que era chamado ao palco, sentava-se ao piano e tocava mais uma peça. Foram três horas de concerto, eu nunca tinha assistido a uma coisa assim.
Tags:

jonathan demme, rip
rosas
innersmile
Jonathan Demme, cuja morte foi hoje anunciada, não foi propriamente um realizador prolixo, e, apesar de eu ter visto um dos primeiros filmes que fez, o Something Wild, e um dos últimos, Rachel Getting Married, não foram muito mais os seus filmes que vi. Mas bastavam três filmes para se tornar um realizador marcante e absolutamente inesquecível.

Falo, claro, em primeiro lugar, de The Silence of The Lambs, o filme que, de maneira um pouco inesperada, arrebatou os chamados Big Five nos Oscars da Academia: melhor filme, melhor realizador, melhor argumento adaptado, melhor actor e melhor actriz! E digo que foi inesperado, dado que era uma produção relativamente independente e o género em que se insere, o terror, não é muito dado a prémios do mainstream, mas completamente justificado. O filme é estupendo, as personagens são daquelas que ficam para sempre, a realização é meticulosa e perfeccionista, os diálogos são daqueles que apetece sublinhar.

Outro dos filmes marcantes de Jonathan Demme foi Philadelphia. Talvez não seja um filme tão fascinante como o anterior, mas teve uma importância histórica determinante, ao trazer para a ribalta de Hollywood, e, mais uma vez, para a glória dos Oscars da Academia, o tema da Sida e o seu impacto na comunidade homossexual, quando isso ainda constituia um forte tabu.

Finalmente, o outro filme brilhante de Demme, foi um dos primeiros que realizou, em 1984, e que eu,, apesar de o conhecer desde essa altura, só recentemente tive oportunidade de o ver projectado num ecrã grande. Refiro-me a Stop Making Sense, o filme-concerto-documentário que Demme fez com David Byrne e os Talking Heads. Demme conseguiu com sucesso total dar ao filme aquela característica que, na minha opinião, faz dos Heads, e de Byrne, artistas muito distintivos: a mistura perfeita entre a pop e a arte, entre a obra cerebral que nos estimula o intelecto, por um lado, mas com um inegável apelo à dança e à fruição, à libertação e à entrega.

edit: o David Byrne escreveu no seu diário online um testemunho de memória e homenagem a Jonathan Demme. Vale a pena ler em: http://davidbyrne.com/journal/jonathan-demme-rest-in-peace .