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pontualmente na hora incerta
rosas
innersmile
Faz hoje um ano que o meu pai morreu. Parece que já foi há muito tempo. De há uns anos para cá têm sido muitas as perdas, e este último ano foi particularmente difícil. Às vezes o tempo parece que voa, mas outras escoa lento. Há muitos anos que o meu pai se tinha ido despedindo de nós. A memória do meu pai na vida comum é já longínqua. Mas não é esquecida. Ele continua sempre muito presente naquilo que eu sou, mesmo com as guinadas que a minha vida tem levado ultimamente. Não sou saudosista, nem vivo sempre na nostalgia do passado, mas cada vez mais sinto que a minha vida é mais passado, que o maior peso da minha vida é vida já vivida. E o meu pai está sempre presente na memória da vida. E no corpo, tantas vezes me pego a repetir-lhe os gestos (já aqui disse, a minha vida com o meu gato é quase igual à que ele teve com o gato dele). Sonho muitas vezes com o meu pai e com a minha mãe. Nunca sonho com a morte deles, mas com a vida, estão presentes nos meus sonhos, ainda que nem sempre o protagonizando. Analiso isso como um sinal de que eles faziam parte integrante da minha vida (eram a minha vida) e que no meu subconsciente eles continuam presentes (são ainda a minha vida).

Estes dias em que se assinala os aniversários das nossas perdas maiores não são dias felizes. Ao contrário, são dias tristes, pesados, de ausência. Estamos sempre a reviver outros dias, quase hora a hora, a hora em saímos de casa, a hora em que recebemos o telefonema. Parece sempre chegar por telefone a notícia que, como no verso de Mário Quintana, “sempre chega pontualmente na hora incerta…” Sabemos sempre onde estávamos e o que estávamos a fazer quando se trata das notícias que inabalavelmente nos mudam a vida.

A propósito do Mário Quintana, aqui há uns anos gravei um clip a dizer esse belíssimo Poema da Gare de Astapovo, que é um dos meus poemas preferidos, um dos poemas da minha vida. Acho que nunca o pus aqui, nem sei se alguma vez o mostrei a alguém. Mas hoje parece-me um bom dia para o partilhar com a memória do meu pai, memória maior das memórias da vida, de uma vida de memórias.



POEMA DA GARE DE ASTAPOVO

O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo,
Contra uma parede nua...
Sentou-se... e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Glória,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!
E então a Morte,
Ao vê-lo sozinho àquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali à sua espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!
A Morte chegou na sua antiga locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta...)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se até não morreu feliz: ele fugiu...
Ele fugiu de casa...
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade...
Não são todos os que realizam os velhos sonhos da infância!


- Mário Quintana