February 14th, 2017

rosas

moonlight

Moonlight, realizado por Barry Jenkins, é um filme em modo de balada que, em três tempos, nos conduz através de uma jornada de coming-of-age, em que parece que todas as dificuldades e obstáculos parecem acrescentar à já por si complexa viagem. Mais do que uma simples história de bullying, é muito mais do que isso, uma história da perturbadora perplexidade com que olhamos o mundo quando tudo nele parece correr contra nós.

Não posso, evidentemente, dar testemunho do que é crescer sendo um rapaz negro num ambiente demasiado hostil. Mas sei bem o que é crescer, passar anos, sem nunca encontrar o ombro certo onde possamos pousar, íntegra, a nossa cabeça. E poucos filmes como este nos dão testemunho dessa radical solidão, uma solidão tão intensa que aos poucos começa a ser ela a própria lente com que espreitamos o mundo e os outros.

Barry Jenkins escolhe contar a sua história em três partes, e uma das chaves do sucesso do filme é o modo como em cada um desses momentos a personagem, o seu desamparo, a sua densidade, a perplexa intensidade do seu olhar, depende do corpo de cada um dos três actores que lhe dão rosto: Alex Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes.

De resto, a maneira como o olhar da câmara se demora nos rostos e nos corpos dos seus actores, é outra das razões porque chegamos ao fim do filme com a sensação de que acabámos de viver uma experiência muito íntima e pessoal. Um filme raro, raríssimo, no actual tráfego do cinema de indústria, e que por isso merece, e pede, um olhar também ele íntimo e demorado.