August 29th, 2016

rosas

(no subject)

Ontem à noite li no livro do Padura este trecho: “A ameaça permanente resultante da deterioração física de Carlos fazia com que Conde se comportasse com uma avareza doentia na sua proximidade com o velho amigo, a quem dedicava todo o tempo possível, consciente de que fazia o melhor dos investimentos para o vazio de um futuro cujo prazo de chegada se tornava cada vez mais curto”.

Experimentei muitas vezes este sentimento, de que precisamos guardar os momentos que passamos com aqueles que amamos acima de tudo, porque um dia vamos precisar deles para nos compensar do vazio da sua ausência. Um dia, há muitos anos, escrevi mesmo um texto ou um poema que falava só sobre isto, e que terminava assim: “Felizes, por um momento, na sombra que nos resguarda do vazio lá de fora, eu e tu. Quero também guardar este sorriso. Porque um dia, quando estiver frio, vou precisar dele para me aconchegar.”

Não consegui encontrar este texto aqui no meu diário, mas, graças à saudosa Amélia Pais, encontrei-o no seu blog ‘Ao Longe os Barcos de Flores’, e noutros que o transcreveram a partir do site da Amélia. Mesmo sem nunca nos termos encontrado, que extraordinário e orgulhoso presente ela me deixou.

Ontem perdi uma pessoa que nos últimos sete ou oito anos me deu tantas coisas boas. Conheço-a desde sempre, desde que cheguei a Coimbra, mas só a partir de 2009, quando a minha mãe fracturou o cólo do fémur, e ela me ajudou a gerir as coisas em casa dos meus pais, a nossa relação se estreitou, num convívio diário, primeiro (durante quase três anos ela dormiu todas as noites em casa dos meus pais), e depois quase diário.

Ajudou-me de todas as maneiras. Tomando conta da situação, quando ela era maior do que a minha coragem ou as minhas capacidades. Apoiando-me sempre nas decisões mais difíceis e solitárias que tomei. Acompanhando sempre sempre a minha mãe, tornando-se uma das pessoas mais próximas da minha mãe. E foi sem dúvida a pessoa que mais me consolou. Mais de uma vez bati-lhe à porta de casa, sentei-me do sofá, e chorei copiosamente, até conseguir pronunciar uma palavra.

E já depois da morte da minha mãe, continuou sempre ao meu lado. Foi a pessoa que mais me acompanhou nas visitas que semanalmente fiz ao meu pai. Fazia-me bolos, partilhava comigo as tigelas de sopa que preparava para a sua família, dava-me conselhos, e encorajava-ma, encorajava-me em tudo que eu partilhava com ela, e fazia-o da forma como só a minha mãe fazia.

Uma tarde, semanas depois da morte da minha mãe, íamos os dois de carro para Condeixa, ver o meu pai, e ela disse-me a coisa mais importante e bonita que alguém me disse acerca da minha mãe. E que era uma coisa que não dizia respeito à minha mãe ou a mim, mas a ela própria, e é maravilhoso nós sabermos que alguém que nós amámos tanto, foi igualmente tão amada por outros.


É impossível pensar que apenas dezassete meses depois da morte da minha mãe, e cinco do meu pai, tu, que tinhas idade para ser minha irmã, te foste embora, com uma doença tão fulminante que te levou em menos de dois meses. E por um momento quero acreditar na alma e na eternidade. E que ontem, apesar de tudo, e do desgosto que sentiste por teres de deixar para trás os teus filhos e os teus netos, foi uma felicidade quando vocês as duas se encontraram lá no céu. E agora que estão juntas, eu estou mais descansado.