July 26th, 2016

rosas

a forma da água



Um dia, quando andava a passear pelo molhe levante do cais, já a chegar ao farol, o comissário Salvo Montalbano surpreende um homem que se prepara para se atirar ao mar. Trata-se de Giosué Contino, antigo professor primário, de 82 anos, que se quer suicidar porque a mulher, de 80 anos, lhe anda a por os cornos com Francesco, o carteiro aposentado, de 76. Montalbano demove o velho professor, leva-o para casa, e vai até falar com o carteiro para lhe pedir para mudar a esplanada onde tomava a seu café, o que este não aceita. A causa dos ciúmes de Contino era o tempo que Francesco demorava, todas as manhãs, a tomar o seu café na esplanada em frente a sua casa, bem como os olhares que trovacavam sempre que a mulher do professor passava na rua. Cerca de seis meses depois, Montalbano é chamado a uma praça da cidade na sequência de um tiroteio. Depois de matar a mulher, na cama, agarrada ao terço, e de ferir de raspão o braço de Francesco, Giosué Contino pusera termo à vida, disparando um tiro de revólver no coração.

Esta sequência, perfeitamente marginal à acção de A Forma da Água, mostra bem o tipo de escritor que é Andrea Camilleri, a matéria de que é feito o seu olhar, e de como por vezes a maior simplicidade, e até uma certa ligeireza, não escondem a profundidade desse olhar.

Trata-se de mais uma história de Montalbano, passada no sul da Sicília, que mistura na perfeição o políciário e o humor, com um herói muito carismático. O nome do protagonista é uma homenagem ao escritor catalão, criador da personagem de Pepe Carvalho. A história envolve os ricos e poderosos, com as suas grandes misérias, e os pobres e excluídos, com as suas pequenas grandezas e a sua dignidade. Este romance tem a peculiaridade de Montalbano tentar descobrir não a autoria de um crime, que não houve, mas o que esconde uma morte natural e acidental.