July 6th, 2016

rosas

camilo

Vi uma vez Camilo de Oliveira a actuar em cima de um palco, Foi há muitos anos (imensos, noutra vida quase), num pequeno teatro de colectividade de bairro, velho e sem condições, numa sala com espaldares na parede e espelhos de ensaio baços. Ou seja antes de ter sido criada a rede de teatros e auditórios municipais que, neste momento, tem a possibilidade de levar espectáculos a tudo o que é cidade ou vila do país. Foi também numa fase em que a carreira do Camilo estava em quase completa estagnação, ainda longe dos tempos em que a televisão, primeiro a pública e depois a privada, lhe deu uma segunda carreira, muito popular, na pantalha, com alguns bonecos inesquecíveis.

Mas era o Camilo que estava ali naquele palco minúsculo e atravancado, a fazer uma espécie sumária de revista, com um texto sem graça, e os recursos cénicos possíveis e reduzidos ao minimo. Era o Camilo, sempre o mesmo Camilo, com aquela mistura de malandrice e candura que só ele conseguia transformar em rábulas eficázes e divertidas, com aqueles tiques de comédia a que achávamos graça porque só o Camilo os conseguia fazer com graça.

Eu era ainda um quase rapazola e fui ver o espectáculo com os meus amigos do bairro. No final estávamos todos um pouco cabisbaixos e embaraçados com a pobreza da coisa. Mas eu estava sobretudo comovido, e resplandecentemente comovido devo dizer, com a enorme dignidade do Camilo, com a sua entrega em cena, com ele levar aquilo tão a sério como se estivesse a actuar no maior dos teatros para o melhor dos públicos. Há experiências que nunca esquecemos. Nem esquecemos as pessoas com quem aprendemos a ser gente.