June 16th, 2016

rosas

viagem literária



Na sexta-feira passada, ao final da tarde, fui ao Gil Vicente, para um encontro com os escritores Luís Sepúlveda e Richard Zimler, numa iniciativa da Porto Editora. A primeira coisa que me surpreendeu foi a quantidade de gente que compareceu ao encontro, a plateia do teatro estava quase cheia, de um público muito atento e reativo; incrível, um final de uma bela tarde de verão, e um teatro enche-se para ouvir falar de livros e de literatura.

Claro, a identidade dos autores presentes ajudou. Não sendo qualquer deles um daqueles nomes que associamos ao “best-sellerismo”, são ambos escritores muito populares, com imensos e fiéis leitores, e talvez o facto de, pelas caracteristicas muito particulares das respectivas obras, conseguirem criar essa relação de fidelidade por parte dos leitores, ajude a explicar a enorme comparência.

Li muito os livros do chileno Luís Sepúlveda, durante uma determinada fase da minha vida. Depois, houve um dia que me cansou, e nunca mais li nada dele. Talvez um dia destes volte a experimentar. Mas a sua parte da conversa talvez me ajude a perceber melhor as razões desse cansaço. Sepúlveda escreve muito bem, é um exímio e feliz (e sedutor) contador de histórias, como ficou provado no palco do Gil Vicente, mas há, nos livros como no discurso, qualquer coisa que me arrefece, como se o autor soubesse demasiado bem usar as cores da sua paleta para provocar determinada resposta emocional no leitor / ouvinte. Sepúlveda conta uma história, aquela história e daquela maneira, porque sabe com grande grau de confiança que os “seus” leitores vão aderir.

Neste aspecto, Richard Zimler pareceu-me muito mais espontâneo e honesto, na sua apresentação perante o público. Expõe-se mais, corre mais riscos, mostra até uma certa candura. Não li tantos livros de Zimler como de Sepúlveda, e acho que os livros do luso-americano não têm o aprumo, e até a ambição, cultural até mais do que literária, dos do chileno, mas Zimler tem, no palco do teatro como nas suas obras, um compromisso com a vontade de narrar, com as histórias que conta e as suas personagens, que me toca e entusiasma.

Seja como for, foi um belíssimo final de tarde. Tive sorte, porque neste encontro, compareceram dois escritores que conheço bem e de cujos livros gosto, e isso, é claro, potencia o interesse por este tipo de iniciativas. E fiquei com pena de não haver mais iniciativas como esta. Até os lançamentos de livros têm sido menos frequentes nos últimos tempos, e, para falar com franqueza, os que tem havido não me têm motivado, por não conhecer os autores e a sua obra.

Depois da sessão no Gil Vicente, um café na esplanada da Casa das Caldeiras e um jantar no redescoberto restaurante a Toscana, sempre com a melhor das companhias, ajudaram a dar ainda mais sentido, e alegria, ao dia de Camões (sim, não escapou a deliciosa ironia de uma sessão literária a decorrer no dia de Portugal ter como convidados dois escritores estrangeiros ainda que, em ambos os casos, tenham fortes ligações ao nosso país).