June 1st, 2016

rosas

o pai bruno

Fui no domingo passado, na companhia do meu amigo Zé, encontrar-me com o Bruno que estava mais uma vez, por razões profissionais, de passagem por Fátima. Gosto sempre destes encontros que se vão tornando habituais, e gosto que sejam em Fátima, um lugar muito improvável para nos encontrarmos. E gosto também que esses encontros sejam sempre ao final da tarde e à noite; não apenas porque a essa hora o local está com muito pouca gente, mas porque de certo modo aumenta uma certa implausibilidade desses nossos encontros: dois amigos fraternos, um brasileiro e um português, duas ou três vezes por ano, encontram-se ao final da tarde junto ao santuário de Fátima, jantam, pôem a conversa em dia, bebem água da fonte que está a meio do santuário (é tradição dos encontros), e despedem-se com um abraço apertado, até à próxima. Parece o enredo de uma short story muito atmosférica e um tanto mística (dado o número de padres e freiras e crentes em penitência que andam sempre por ali).

Desta vez o encontro teve um aspecto particular que foi ser o primeiro desde que fizemos férias em Cabo Verde, e, por isso, serviu também para devolvermos coisas que tínhamos trocado nas férias, por exemplo livros. Mas o aspecto mais fabuloso deste nosso encontro foi o Bruno ter trazido com ele um pequeno caderno de capas pretas, muito antigo e já com sinais de desgaste, que o pai dele, também chamado Bruno, transformou num guia da viagem que pai e filho fizeram, em dezembro de 1974, tinha o Bruno (filho) 10 anos, em Portugal e Espanha. Pode parecer coisa pouca, trazer assim um caderninho para mostrar ao amigo. Mas não é: o Bruno já saiu de casa há mais de duas semanas, o caderninho já viajou pelo Egípto, Terra Santa, e Roma, e agora finalmente chegou a Portugal. Ou seja, um caderno de viagem em viagem!

O nível de detalhe do caderno que o pai Bruno preparou é impressionante. Informações essenciais sobre ele próprio, a sua identificação e contactos: próprios, das embaixadas, dos escritórios das companhias aéres, de empresas de rent-a-car, dos hotéis onde tinha reserva. Informação sobre os carros que alugou para a viagem, nomeadamente as marcas. Um guia detalhado de todos os percursos a fazer na viagem, com uma pequena descrição das cidades, lugares a visitar e restaurantes. Em Coimbra, por exemplo, o Bruno pai apontou, entre outros, os restaurantes Pinto de Ouro e Jardim da Manga. O caderno é complementado com anotações feitas durante a própria viagem: um pico em ‘V’ nos lugares efectivamente visitados, mudanças ao plano inicial, ou outro tipo de notas.

A tarefa de construir este guia é tanto mais notável se nos lembramos, como o Zé chamou a atenção, de que foi preparado nos anos setenta do século passado, antes de haver internet e de a informação estar disponível com a facilidade actual. Ou seja, como é que o pai do Bruno, lá no Rio de Janeiro, descobriu que havia em Coimbra um restaurante Pinto de Ouro?!

E depois, tudo escrito num cursivo muito bonito e elegante, em caneta de aparo, tinta azul, num caderninho pautado de capas pretas. A sério, parece coisa de filme...

Poucas vezes na vida tenho visto um objecto assim, tão simples, tão bonito, tão fascinante (apeteceu-me logo ficar com ele). Tão pessoal e íntimo, e, ao mesmo tempo, um documento para o futuro, como projecto e também como memória. Fiquei de imediato a sentir uma imensa ternura pelo pai do Bruno. E sendo já tão amigo de Bruno, parece que, através do seu pai, fiquei ainda mais seu amigo.

edit:
O Bruno enviou-me três fotos do caderninho da viagem a Portugal: uma da capa, duas das páginas referentes a Coimbra. Aqui ficam elas, para ajudar a perceber a jóia que é este objecto.