May 20th, 2016

rosas

em todas as ruas

Já não sei por que associação de ideias, um dia destes lembrei-me de ti, depois deste poema do Mário Cesariny, do irresistível e encantatório apelo dos dois primeiros versos, e imediatamente me transportei, ‘vá savoir!', para as ruas de Alcobaça. Nós, na sala do panteão real como se estivéssemos sozinhos no mundo; nós, lado a lado, a atravessar a imensa praça em frente ao mosteiro, como se o nosso lugar fosse aquele, assim, livres e altos numa enorme praça aberta; nós, percorrendo a rua estreita e sombreada que corre junto à vetusta parede do mosteiro, como se o som da água a correr fosse a música do nosso destino.

"Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco"


Mário Cesariny, PENA CAPITAL