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esferográfica
rosas
innersmile


Quando teve de ser internada nos cuidados paliativos, nas vésperas do natal de há dois anos, a minha mãe tinha uma esferográfica Bic presa pela tampa num dos seus livrinhos de palavras cruzadas. Como nos dias seguintes ao seu internamento ainda melhorou um pouco, eu levei-lhe os livrinhos e a esferográfica, que ficaram na gaveta da mesa de cabeceira até ela morrer. Quando arrumei as suas coisas, tirei a esferográfica e levei-a para o meu gabinete. Como escrevo quase exclusivamente no computador, a esferográfica serve para tomar notas em reuniões e, principalmente, para despachar as pilhas do expediente diário. Ontem, a tinta acabou. E agora eu olho para ela, sem saber muito bem o que fazer a um objecto vazio, inútil, mas tão carregado afetiva e emocionalmente. É que a memória, a nossa, e a dos outros, também habita estes objetos do dia a dia, banais, quase irrelevantes. Pelo menos por enquanto, guardo-a na gaveta.