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pai
rosas
innersmile
Mais de duas semanas sem vir aqui escrever. A última vez que aqui tinha escrito foi para anunciar que ia de férias. E fui, uma semana em Cabo Verde, maravilhosa terra, maravilhoso povo, maravilhosas férias, na companhia do meu amigo Bruno. Encontrámo-nos na ilha do Sal, um procedente do Rio de Janeiro e outro de Coimbra, fizemos três dias de praia, e depois fomos para a ilha de Santiago, para a Cidade da Praia, capital do país. À chegada ainda ficámos o fim de semana da Páscoa em Lisboa. Depois, no domingo, o Bruno iniciou o seu regresso ao Brasil e eu vim para casa. Tenho um caderno com apontamentos e impressões da estadia em Cabo Verde, se um dia destes tiver paciência passo-o para aqui.

Como disse, regressei a Coimbra no Domingo de Páscoa, e decidi tirar o dia de segunda-feira para, entre outras coisas, ir visitar o meu pai à casa de saúde, depois de dois fins de semana ausente. Por volta da uma da tarde, quando me preparava para o ir ver, recebo um telefonema da casa de saúde a dizer que o tinham levado para a urgência do hospital para ser observado, pois tinha passado mal a noite, com vómitos. Meia hora depois recebo nova chamada, desta vez do hospital, a comunicar que o meu pai tinha acabado de falecer.

No mesmo mês em que fez um ano que perdi a minha mãe, perco o meu pai. Da maneira mais inesperada, mas também a mais rápida, e espero que o meu pai, que já estava bastante ausente com uma demência cognitiva, tenha morrido sem sofrimento físico e sem angústia. Costumo dizer que a vida me trata com uma ironia por vezes um pouco cruel; serão coincidências, mas assim como a minha mãe morreu no único dia em que, por motivos profissionais, eu não a pude visitar logo pela manhã (igualmente a uma segunda-feira), o meu pai morreu quando me preparava para o ir ver depois de dois fins de semana sem o visitar, a primeira vez que tal tinha acontecido.

Esta circunstância, agravada pelas características da sua doença, deixam-me um inevitável sentimento de abandono, como se, primeiro a minha mãe, e agora o meu pai, me tivessem deixado na única altura em que não estive presente. Não sinto remorsos, note-se, porque tenho consciência de que, estando eu sozinho a velar e a cuidar deles, fiz por eles tudo o que era possível, e no caso do meu pai, tenho a certeza de que não haveria melhor solução para ele do que a instituição onde esteve internado nos últimos quinze meses.

Apesar da sua doença, ter o meu pai, ir visitá-lo todos os fins de semana, conversar com ele, passear, dar-lhe mimos, ajudou de alguma maneira a mitigar o sentimento de tremendo desamparo que senti com a falta da minha mãe. Agora sim, sinto-me verdadeiramente órfão e sozinho, para mais tendo o meu irmão e os meus sobrinhos a viver tão longe de mim.

E se é verdade que essa solidão acentua a tristeza que sinto pela falta dos meus pais, não deixo nem por um momento de me sentir muito grato por ter tido os meus pais comigo, para mais numa relação muito íntima e intensa, durante tantos anos. A minha mãe faleceu com 84 anos, e o meu pai a escassos meses de fazer 87. Foi uma felicidade imensa ter tido os meus pais durante tanto tempo, com uma vida que apesar de tantas dificuldades e dissabores, foi sempre vivida com alegria e prazer.

Não é o caso de dizer que aprendi muito com eles, que eles fizeram de mim o que sou hoje; provavelmente isso é verdade, mas é tão evidente e inevitável que nem merecerá grande nota. Mas mais importante, aquilo que guardo sempre, e sempre guardarei para que me aqueça sempre os dias, é que os meus pais foram os maiores amigos que eu tive, e foram as pessoas que, em todos os momentos, mais contribuiram para a minha felicidade e para o meu gosto de viver.

Nascemos sozinhos e morremos sozinhos, diz o lugar-comum. E só aqueles que nos amaram intensa e incondicionalmente, conseguem fazer com que esse sentimento de solidão tão primordial e extremo, se atenue ao longo da vida, dos dias. No meu caso, e não desconsiderando algumas pessoas, familiares e amigos, de quem gosto mais do que sou capaz de o dizer, só os meus pais me davam a tranquila certeza de que não estava sozinho no mundo.