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hoje
rosas
innersmile
Faz hoje um ano que a minha mãe morreu. Tenho pensado muito naquilo em que a minha vida mudou com o desaparecimento da minha mãe. Para além das saudades, que sinto todos os dias e cada vez mais fortes, acho que o que mais mudou na minha vida foi o aparecimento de uma certa sensação de transitoriedade. De que o que eu estou a viver é temporário, passageiro, como se estivesse sempre à espera que a minha vida vá assentar de outra maneira. A sensação de que não estou em casa, e estou desejoso por chegar a casa. Como se me faltasse uma estabilidade qualquer. Parece que tudo o que faço, todas as rotinas, os planos, as aventuras, têm um sentido provisório. Falta-me a minha mãe: falta-me um sítio para pousar a cabeça. Não é isso a que chamam casa?

Também me faz muita aflição pensar em tudo o que a minha mãe não está a viver. Todas as coisas, as boas, as más, mas principalmente as boas, as que me aconteceram, as que vão acontecendo à minha volta, com pessoas que me dizem alguma coisa ou que lhe diziam alguma coisa, parece que a tudo isso falta algum sentido porque ela não as viveu. Eu ia escrever “porque ela JÁ não as viveu”, mas o sentimento que tenho é mais “porque ela AINDA não as viveu”, como se faltasse a todas essas coisas o ela tê-las vivido, para poderem fazer o sentido completo.

Tento preservar a alegria da minha mãe, o seu entusiasmo, a maneira intensa, quase extasiante, como ela sabia aproveitar e gozar tudo o que de bom que a vida lhe dava, mesmo que fossem coisas sem importância. Ou sobretudo se fossem coisas sem importância ou pouco importantes. Viver em pleno, sem estar à espera de alguma coisa.

Continuo a sentir uma imensa compaixão pela minha mãe, pela maneira dolorosa, quase cruel, como viveu os seus últimos dias. Mas sinto sobretudo compaixão pelo facto de lhe estar a ser negada a vida, uma coisa que ela apreciava tanto, e sabia usufruir. A minha mãe não tinha medo de morrer, mas tinha uma pena imensa, de todas as coisas que ia deixar de gozar e apreciar.

Também tinha muita preocupação. Comigo, e com o meu pai. O grande receio dela era o que é que nos iria acontecer depois de ela partir, como é que iriamos ser capazes de “lidar” com a vida sem ela. Por isso, hoje tenho um recado para ela: o meu pai está bem, tranquilo, sem angústias, é bem tratado, e sobretudo não sofre com ausências ou privações. Quanto mim, é como aquela canção velhinha do Francisco José, que nós tanto gostávamos de cantar, meio a sério meio no gozo: “ó minha mãe, o teu filhinho está bem, só as saudades que tem, lhe causam esta aflição”. Lembras-te? Vá, não chores, é para rir.