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heart of a dog
rosas
innersmile
Finalmente vi o filme de Laurie Anderson, Heart of A Dog, na sessão desta semana do cineclube. Adorei o filme, apetecia-me trazê-lo para casa, como se fosse um livro, para o poder reler, para sublinhar passagens, para explorar as suas imensas pistas e direcções.

A propósito da morte da cadela Lolabelle, Laurie Anderson vai desenhando um mapa das suas perdas pessoais: o marido, Lou Reed, ainda que de forma muito subtil, a mãe, amigos, como Gordon Matta-Clark (um artista plástico norte-americano, falecido em 1978, e que eu apenas descobri recentemente, graças ao Tumblr). Esse mapa serve para a artista fazer uma reflexão sobre a morte e sobre a sua relação com a morte, e é feito de imagens manipuladas, em video e fotografia, de muita música, e de palavras, de histórias de Laurie Anderson, de recordações de infância, de experiências, de referências e citações.

O filme tem passagens muito intensas e poderosas, umas que nos perturbam ou comovem, outras que nos obrigam a pensar fora da nossa box mental, passagens que nos falam quase directamente, que apelam às nossas próprias experiências e às nossas histórias. Uma das razões por que eu gosto tanto da Laurie Anderson, é porque ela é ao mesmo tempo muito racional e muito emocional, é uma intelectual, no verdadeiro e mais puro sentido da palavra.

Quando se tem uma relação antiga com o trabalho de um artista, é inevitável comerçarmos a sentir uma espécie de intimidade, ou apropriação, desse trabalho. Já aqui pus, creio que mais do que uma vez, um clip que fiz com imagens captadas por telemóvel, em Mira, de um céu varrido por nuvens, e com o tema Flow, que encerra o disco Homeland. No filme, há várias imagens do céu e das nuvens a passar, que não são muito diferentes das que eu fiz. Já perto do final do filme, há uma cena de uma floresta gelada, e ouvem-se os acordes de Flow. Se escrevo isto aqui é apenas para registar o gozo que me deu perceber que a minha percepção do trabalho da artista é de certo modo (um modo muito pessoal, muito ‘meu’) validado pela maneira como Laurie Anderson convoca o seu próprio trabalho. Já quando assisti ao concerto na Casa da Música, em junho de 2011 se não estou em erro, a Laurie Anderson escolheu este tema para um encore único e inesperado da sua actuação.