December 23rd, 2015

rosas

high society

Aproveitei as comemorações do centenário do nascimento de Frank Sinatra para rever os filmes que passaram na televisão, com o actor. Um deles foi um dos meus preferidos, High Society, um musical sui generis realizado por Charles Waters, com um elenco de luxo: Grace Kelly, no seu derradeiro papel no cinema, antes de ir viver as grandezas e as agruras do conto de fadas real no principado do Mónaco, Bing Crosby e Frank Sinatra, dois dos melhores crooners entre os melhores, Celeste Holm, e a participação preciosa do grande Louis Armstrong, que nao só intervém tanto musicalmente como narrativamente (é ele que abre e fecha o filme). E digo sui generis porque praticamente não tem números musicais coreografados, apenas música sob a forma de canções, de grandes canções.

É que, pelo menos para mim, o melhor do filme são as canções de Cole Porter, escritas propositadamente para ele. Uma mão cheia de standards, clássicos absolutos, ao nível do melhor que Cole Porter escreveu e compôs: Who Wants To Be a Millionaire, Well Did You Evah, You’re Sensational ou Now You Has Jazz (que serve para Satchmo apresentar individualmente os membros da sua banda). Mas, claro, a melhor canção do filme é True Love, uma daquelas baladas perfeitas, como só Porter sabia fazer (ok, e George Gershwin também).

Só agora a rever o filme é que me bateu que High Society é uma adaptação da peça The Philadelphia Story, a partir da qual George Cukor tinha feito, em 1940, um filme com Katharine Hepburn, Cary Grant e James Stewart, e que é um dos meus filmes preferidos. Claro, já me podia ter ocorrido que os nomes das personagens são exactamente os mesmos, Tracy Lord, C.K. Dexter e Mike Connor. Mas só agora, ao ver o filme e a reconhecer a trama e as peripécias da narrativa é que me bateu que a história era exactamente a mesma. Mas o que me fez mesmo o click para eu de repente me lembrar do filme de Cukor foi uma linha de diálogo, ou mais precisamente uma expressão: ‘yare’. Não consigo precisar qual é a frase dita em High Society, mas em The Philadelphia Story, a Tracy prometia ao Dexter mesmo antes de voltar a casar com ele: “Oh Dexter, I’ll be yare now, I’ll promise to be yare now”.
rosas

natal outra vez



Há um ano vivi o Natal mais intenso da minha vida. Sozinho, e a ter de lidar com os meus próprios medos, e com o sofrimento daqueles a quem mais amei. A viver emoções e sentimentos que me deixavam desamparado, apesar de saber que um dia eles iriam chegar. A tentar não perder a capacidade de me sentir bem, feliz mesmo, não obstante sentir (mais do que sentir, a viver) que se erguia perante mim o muro avassalador da perda mais definitiva daquilo que eu considerava ser o melhor e o mais importante da minha vida. Ao longo deste último ano, acho que o único verdadeiro esforço que fiz foi o de não sentir pena de mim mesmo; de resto, a tudo me entreguei com a mansidão possível.

Um ano depois, preparo-me para o primeiro Natal sem a minha mãe com uma tranquilidade que mesmo a mim próprio surpreende um pouco. Nada é importante. As minhas perdas, as minhas tristezas, as minhas saudades, não são sensíveis à quadra. Temi, como já escrevi aqui, este mês, ter de percorrer um calendário de cicatrizes ainda tão recentes e abertas. Podia ter decidido ficar aqui sozinho com o meu gato, a ler e a comer coisas doces.

Mas não. Gastei uma pipa de massa a comprar prendas para algumas das pessoas de quem mais gosto e que me fazem sentir bem. Amanhã de manhã, logo cedinho, meto-me no carro e vou por aí abaixo. Entregar-me à placidez dos dias. No fim de contas, é só isso que interessa.

Habituei-me, ao longo deste ano, a fazer o exercício de pensar se as coisas que faço seriam do agrado da minha mãe, se, podendo ela saber delas, isso a deixaria feliz. É uma espécie de moral: vou fazer isto porque se a minha mãe soubesse que eu ia fazer, ficava contente. Por isso vou passar o Natal com os netos e com a bisneta e com a bisneta-nova-que-aí-vem, dela. Porque se eu lhe pudesse dizer, olha em vez de ficar aqui armado em triste, vou mas é lá abaixo, ela ia dizer ‘Claro, fazes bem. Fico muito feliz por ires passar o Natal com eles’.

Volto já. Bom Natal para todos os amigos e leitores.