November 11th, 2015

rosas

ora então vamos lá à política

A verdade é que há muito tempo que a política não me divertia tanto como nestes últimos dias. Quem diria que depois da decepção do resultado eleitoral das eleições de outubro (mais por causa da votação da direita do que pelo fraco resultado da esquerda), as coisas iriam ganhar tanto interesse.

Confesso que a princípio custou-me um bocadinho a engolir esta solução de haver uma alternativa de esquerda a um governo da coligação de direita; pareceu-me assim uma espécie de golpe de estado constitucional, de vitória na secretaria. Mas o ponto é que abomino estes tipos que nos governaram durante 4 anos, não tanto pelas medidas que tiveram de tomar, e que foram, na sua maior parte, impostas pelas instituições internacionais, mas pelo tom que o fizeram: ali entre o paternalista e o insultuoso, tratando os portugueses abaixo de cão, culpando-os de todos os males por que o país passou. Ou seja, em vez de pedirem desculpa pela gravosidade das medidas, apelando ao espírito patriótico dos portugueses, impuseram-nas como se fossem uma espécie de castigo. Esta falta de patriotismo, de respeito pelo povo, pelas pessoas que votaram neles, é imperdoável, e só por isso valeu a pena este volte-face.

Mas esta capacidade da esquerda, pela primeira vez em muitos anos de democracia, encontrar pontos de entendimento onde antes apenas havia uma espécie de aversão mútua, dá-me gozo sobretudo porque representa capacidade de reacção contra um status quo que nos íamos habituando a aceitar. Eu não sou adepto da teoria da conspiração, mas nestes últimos 4 anos, ou melhor, nos últimos 6, desde a reeleição do Sócrates, a direita tomou literalmente conta do país, impondo as narrativas que melhor serviam a agenda liberal, de privatização de todos os sectores produtivos estratégicos, de enfraquecimento dos trabalhadores por conta de outrem na relação laboral, de esvaziamento da classe média (de forma a tornar os pobres cada vez mais e cada vez mais pobres, e o ricos cada vez menos e cada vez mais ricos), de submissão aos ditames do capitalismo especulativo.

De facto, nestes últimos anos a direita tornou-se a verdadeira DDT: a Dona Disto Tudo. Dos banqueiros aos empresários, passando pelo poder judicial. Mas em nenhum outro sector a “escalada direitista” foi tão evidente e tão desavergonhada como nos meios de comunicação social. As linhas editoriais, os comentadores, a escolha das capas, o livro de estilo dos jornais, tudo ao serviço do ataque cerrado aos partidos de esquerda e da imposição da retórica neo-liberal. Até à porcaria das novelas chegou a narrativa dos tempos difíceis, de que as pessoas viviam acima das suas possibilidades. O próprio tom da escrita, sempre pejorativo quando se refere à esquerda, sempre encomiástico no que toca á direita. Na verdade, não foi a esquerda que se uniu; foi a direita que se radicalizou e que criou espaço para haver entendimentos entre um partido de vocação centrista e os partidos de esquerda com representação parlamentar.

Se Costa for mesmo primeiro-ministro, tenho poucas dúvidas de que os próximos tempos vão ser muito complicados, até porque vai ser fogo à peça de grande calibre, que aliás já começou. E se os tempos vão ser difíceis para o governo isso vai necessariamente reflectir-se na vida dos portugueses. Nessa medida, não estou optimista nem esperançado. Mas o momento é de facto nosso, daqueles que acreditam que Portugal pode voltar a ser novamente um país decente e principalmente democrático, governado por quem sabe que só pode governar bem quem o fizer com respeito e para o bem-estar das pessoas.