November 3rd, 2015

rosas

legend

Quando comecei a ir a Londres, em 1984, os irmãos Kray eram verdadeiros ícones pop. O seu lugar na cultura popular tinha sobretudo a ver com o ambiente dos swinging sixties e com as suas ligações aos negócios da noite, mas também com aquela mistura escandalosa de crime-celebridade-sexo-e-drogas de que os ingleses tanto gostam. E um pouco a prova disso é o facto de já em 1990 se ter feito um filme sobre eles (que eu não vi) em que o papel dos gémeos era interpretado por dois artistas pop, os irmãos Kemp da banda Spandau Ballet.

E o meu interesse pela sua história teve sobretudo a ver com a descoberta de que um dos gémeos era homossexual, e de uma forma não diria tanto assumida, mas desabrida, e conhecida por todos os que conviveram com eles. Por isso, às ligações ao crime organizado norte-americano, ao tráfego de droga, e ao recurso a uma violência brutal como método de dissuasão, os Kray acrescentavam ainda a chantagem da denúncia pública das ligações de inúmeros políticos, conservadores e trabalhistas, a Ron Kray, que com eles mantinha ligações sexuais, recrutava-lhes acompanhantes e prostitutos, e organizava-lhes orgias.

O filme Legend (Lendas do Crime), que Brian Helgeland fez agora com a história dos irmãos Kray explora o lado excessivo da sua história: o excesso da violência, mas também da feerie que era a sua vida, feita de luxo e bas fond. Não terá a inteligência cinéfila de um Tarantino, mas seguramente tem mais subtileza do que um Guy Ritchie. O filme explora muito a tensão psicológica entre os dois irmãos: Reggie, o cérebro da ‘Firma’ (como era conhecida a sua associação criminosa), que aspirava a dedicar-se apenas aos negócios legítimos dos casinos e dos bares noturnos, e Ronnie, um psicopata violento e incontrolável.

Um dos trunfos do filme é a interpretação de Tom Hardy em ambos os papéis; apostando numa certa dissimelhança física entre os dois gémeos (que eram idênticos), Hardy consegue estabelecer a dose de tensão dramática adequada entre as diferentes maneiras como os dois irmãos pretendiam conduzir as suas vidas, mas sempre reforçando a forte ligação que existia entre ambos.