October 8th, 2015

rosas

perguntem a sarah gross, uma década queer



Aquilo que para mim é mais extraordinário neste livro é a capacidade de construir uma narrativa romanesca a partir das experiências limite (tão fora da ficção como, aliás, da própria não ficção) da vida dos judeus sob o nazismo e dos campos de concentração. Este plano narrativo,que nos é apresentado num crescendo acelerado de intensidade e crueza, como que está resguardado por um outro plano narrativo, ambientado a uma escola norte-americana nos anos 60, que tem de certa maneira uma dupla função: a de nos proteger, enquanto leitores, da natureza insuportável do olhar sobre o horror nazi, e a de oferecer um contraponto de sobrevivência a essas experiências da barbárie.

Do ponto de vista da estrutura narrativa, o livro é quase perfeito (há apenas um desenvolvimento que me parece irrelevante); a linguagem é simples e envolvente, e o romance tem uma qualidade cinematográfica evidente.




O título é auto-explicativo:cinquenta entrevistas, realizadas entre os anos de 2004 e 2014, a outras tantas personalidades, portuguesas ou estrangeiras, com relevo naquilo a que poderíamos denominar por cultura queer, realizadas por um dos jornalistas nacionais que mais trabalho tem desenvolvido e publicado na temática LGBT. Ainda que algumas entrevistas estejam de certa maneira reféns do período em que foram realizadas (estou a lembrar-me, por exemplo, da que tem como protagonista Antony Hegarty), o ponto é que quase todas são actuais e, mais importante, têm de facto qualquer coisa de relevante a transmitir. O livro está organizado por temas, que vão do activismo às questões do corpo e do género, com particular ênfase no mundo da literatura, das artes e da cultura em geral. Trata-se de uma obra útil e indispensável a quem se interessa pelo tema, ou pelas personalidades entrevistadas.