October 5th, 2015

rosas

as mil e uma noites, volume 2: o desolado. the martian

Ainda antes de ir para o hospital fui ver o segundo volume de As Mil e Uma Noites, o filme de Miguel Gomes. Intitulado O Desolado, as histórias que integram este segundo volume fazem jus ao título, e são de facto tristes e desoladas: a primeira reconstrói, com dose significativa de liberdade ficcional, o episódio do assassino denominado “o Palito”, que, suspeito de assassinar a famíllia, andou um mês e tal a fugir da polícia com a suposta conivência das populações; a segunda história é sobre um julgamento, ocupando o juíz a parte principal; e a terceira decorre nos subúrbios de Lisboa, anda à volta de um cão chamado Dixie e dos seus sucessivos e precários donos, uma história tristíssima.

A piece de resistance deste volume é sem dúvida a história central, a do juiz, que é, ainda que triste e desolada, um prodígio, quer de construção narrativa (um julgamento que decorre numa arena ao ar livre, e onde vão comparecendo sucessivamente protagonistas e testemunhas de crimes) quer sobretudo pela própria matéria ficcional, uma sucessão de crimes, coisas medíocres, dramas entre vizinhos ou golpadas financeiras, enfim, um retrato amargo e impressionantemente fiel deste país que somos, plasmado num retrato que vai dos chineses dos vistos gold ou dos banqueiros caídos em desgraça aos protagonistas dos reality shows da TV e às histórias de faca e alguidar que enxameiam os telejornais televisivos.

Já depois do hospital, fui ver The Martian, uma aventura espacial realizada por Ridley Scott, com o sempre entusiasmante Matt Damon no protagonista. Às tantas, o protagonista diz a seguinte frase: “I'm gonna have to science the shit out of this”, que resuma bem o principal interesse do filme: a possibilidade de criar uma narrativa de aventuras sempre a partir daquilo que já é o desenvolvimento científico e tecnológico actual ou nas potencialidades provisíveis a curto prazo desse desenvolvimento. Mais do que de ficção científica, o que se trata aqui, à semelhança do que aconteceu com filmes como Gravity ou Interstellar, é sobretudo de cenários de antecipação científica, utilizando a conquista espacial para construir histórias de superação individual e de esperança no futuro dos valores humanos.