September 15th, 2015

rosas

refugiados

A crise dos refugiados que está na ordem do dia da Europa é, como quase todas estas coisas, demasiado complexa para podermos ter opiniões muito simplistas e taxativas. O mundo raramente é a preto e branco, e o demónio esconde-se nas múltiplas e subtis variedades de cinzento.

Mas há duas ou três coisas que eu sei. A primeira é que, e isto é enfaticamente assim no caso dos refugiados sírios, o Ocidente tem muitas, para não dizer todas as responsabilidades na origem desta crise. Para poder levar a democracia, ou o simulacro dela que é o regime que nós conhecemos, a países com regimes mais ou menos ditatoriais, e dessa forma diminuir o poder das oligarquias reinantes que obstaculizavam os interesses do ocidente, a Europa e os EUA armaram tudo o que era oposição; foram as famigeradas primaveras árabes, que nós andámos a celebrar nas redes sociais, e que destaparam as caixas de pandora de todos os fundamentalismos radicais. Daí a guerra na Síria, que dura há quatro ou cinco anos, que tem destruído património da humanidade e levado o caos ao país e o sofrimento às populações. Os sírios não eram uns tipos andrajosos e maltrapilhos que viviam em lassidão à espera que lhes pusessem uma arma na mão; ao contrário, eram um povo trabalhador e culto, com estilos de vida tão ou mais sofisticados do que o nosso, que tinham uma economia próspera e diferenciada, e que vivam sob um regime que negava a liberdade de oposição política e cerceava o direito de opinião, mas que mantinha um equilíbrio estável e participado entre os diversos grupos religiosos, e que permitia liberdade de circulação às pessoas, nomeadamente para virem estudar ou trabalhar para os países ocidentais.

Outra coisa que eu sei é que, como acontece habitualmente, a verdade imanente das coisas não está nas redes sociais: nem na ingenuidade bondosa de quem pretende receber os refugiados de braços abertos (desde que eles não sejam colocados na minha terra, como a co-incineradora), nem na retórica demagógica de quem acha que atrás de cada criança síria está um terrorista façanhudo e que esses tipos só querem vir para cá roubar-nos os empregos e as mulheres. Uma e outra posição são apenas as duas faces da mesma realidade: a de quem não quer ver perturbado o seu estilo de vida, nem ter problemas de consciência com o mal dos outros.

A outra coisa que eu sei é que a minha mãe, durante todo o tempo que viveu depois da vinda de Moçambique, sempre recusou o epíteto de ‘retornado’ com que se apelidaram as pessoas que vieram das ex-colónias; ela dizia que não tinha retornado a sítio nenhum, porque nunca tinha posto os pés em Portugal até ao dia de abril de 1977 em que desembarcou na Portela.Considerava-se antes uma refugiada, a quem, por razões que a ultrapassavam e que não tinham nada a ver com a sua circunstância pessoal, mas com os ventos da história, impediram de continuar a viver na terra onde nasceu e obrigaram a procurar refúgio (lá está!) em terra alheia.

Foi, digo eu, e tal como aconteceu comigo, com muitas pessoas da minha família e com um número incontável de amigos e conhecidos, uma refugiada privilegiada, porque no meio do caos que varreu a sua vida, encontrou uma terra que a acolheu, que a integrou e que lhe deu todas as condições para ela, a partir daí, a considerar tão sua com tinha sido aquela de onde teve de sair por razões que lhe foram alheias e que causavam enorme, e insustentável, constrangimento e sofrimento, quer físico quer psicológico. Ora, e o ponto deste texto é este, parece-me que a propósito desta crise de refugiados sírios, nõs não deveríamos estar a falar de qualquer outra coisa senão de isto mesmo.