September 11th, 2015

rosas

vicious, looking

Vi recentemente a segunda temporada de duas séries de televisão que apreciei muito. Nenhuma delas passou em canais portugueses, nem sequer da tv cabo (ou se passaram não dei por isso, eventualmente por terem passado num canal codificado), por isso tive de as ver num site da net que só passa séries, com legendas de origem brasileira nem sempre muito fiáveis.

Trata-se de Vicious e de Looking. A primeira, de origem inglesa, da ITV, gira à volta de um casal de bichas velhas (‘velhos fagotes’, como diria um amigo meu), e tem o enorme atractivo de ser desempenhado por dois dos maiores actores ingleses da actualidade, ambos gays: Derek Jacobi e Ian McKellen.O texto é mordaz, embora o humor nem sempre seja muito fino e subtil. Mas vive sobretudo de uma caracteristica única e muito bem apanhada: faz humor com o preconceito, com o lugar comum, com o cliché, de maneira que aquilo que poderia soar como ofensivo torna-se ridículo e risível.

Looking é outra coisa. Produzida pela HBO, a série chamou-me a atenção por ter sido criada pelo Andrew Haigh, um realizador inglês de quem eu vi há uns tempos um filme de que gostei imenso, Weekend, e acerca do qual acho que falei aqui. Looking segue a vida de três homossexuais que vivem em São Francisco, sempre da perspectiva das relações amorosas ou apenas sexuais, num registo que que vai do drama à comédia e em que, quer o argumento quer o trabalho de câmara, privilegiam o detalhe e o quotidiano. No entanto esta perspectiva íntima desenrola-se sempre num contexto em que estão em causa os direitos dos homossexuais e aquilo que poderemos denominar por cultura e estilo de vida gay. Prevista para continuar, a série foi no entanto cancelada no final da segunda temporada (apesar de se anunciar um filme que una as pontas soltas da história), o que torna estas duas temporadas uma obra de ficção televisiva que dificilmente poderá ser repetida, e que, tenho poucas dúvidas, ficará na história da representação televisiva da homossexualidade, como foi, por exemplo, o caso da Queer as Folk, quase duas décadas atrás.

Já depois de ter escrito o texto acima li uma entrevista ao Andrew Haigh, feita pelo jornalista Bruno Horta, que a publicou no seu livro Uma Década Queer: 50 Entrevistas em Português (2004-2014), recentemente editado pela Index ebooks. Achei curioso porque uma das perguntas feitas ao realizador compara Looking com Queer as Folk , precisamente pela sua importância ‘histórica’, enquanto marcos na maneira como a TV, em especial a ficcção televisiva, representa os homossexuais. Talvez compreensivelmente, Haigh responde um bocadinho ao lado, defendendo aquilo que distingue a sua série, nomeadamente pelo facto de estar mais alinhada com o tempo actual. Ora, é justamente esse alinhamento com a época em que foram feitas que permite comparar as duas séries.