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24 de julho
rosas
innersmile
Os meus pais casaram há 61 anos, naquele que era o dia da cidade de Lourenço Marques e que, tanto quanto sei, continua a ser feriado em Moçambique. Ano passado ainda estávamos juntos os três, apesar de em condições muito difíceis, por causa da acentuada demência do meu pai. Em poucos meses, a doença da minha mãe agravou muito, o que, há um ano, não me passaria pela cabeça que pudesse acontecer; sabia que ela tinha uma doença muito grave, mas acreditava que a sua evolução seria muito lenta, e que o verdadeiro perigo, no seu caso, havia de chegar por causa da insuficiência cardio-respiratória.

O facto é que um ano depois a minha mãe já partiu, o meu pai está internado, num processo de progressivo oblívio da sua memória e das suas referências, a data diz pouco à restante família, que nem se lembra, e apenas a minha memória guarda e celebra, com comoção e um misto de alegria e tristeza, este dia. Que é importante, porque foram muitos anos de vida em comum; os meus pais viveram muita coisa, muitos revezes da vida, mas também muitas alegrias. Sempre tiveram, acho eu, e embora nem sempre de uma maneira muito clara, vontade e prazer em gozar a vida, e souberam, mesmo em períodos muito complicados, fazer coisas apenas pelo gozo de as fazerem juntos.

Suponho que, vistos à distância da memória, foram um casal feliz. Embora em ambos tenham sempre convivido, ainda que de maneiras diferentes, muito diferentes, sentimentos contraditórios: o amor que viveram era-lhes muito compensador, mas ambos sentiam alguma frustração por esse amor de certo modo lhes ter limitado tudo o que desejavam para as suas próprias vidas. Mas tenho consciência de que se calhar, neste aspecto, e apesar de os conhecer muito bem, estou um bocado a inventar; mas sinceramente, penso que não.

Os últimos cinco anos da sua vida comum foram muito complicados, apesar de eu ter tentado tudo o que creio ter sido possível, para amenizar essas dificuldades, sobretudo para a minha mãe, e tentar dar-lhe algumas alegrias que a compensassem dessas difíceis complicações. E foram tão difíceis que, progressivamente, e depois de termos feito uma bela festa quando foram as bodas de ouro, em 2004, a data foi ganhando um certo sabor agri-doce. Por isso faço em esforço para tentar resgatar a alegria e a celebração dessa festa, quando nem tínhamos consciência de que o abismo estava tão perto. E enquanto tiver memória, espero continuar a celebrar.