July 10th, 2015

rosas

palomar



Aqui há uns anos tive a ideia de ler um livro de Italo Calvino por ano. É o que eu faço com alguns autores de que gosto muito, e, depois de ler Se Numa Noite de Inverno Um Viajante e As Cidades Invísiveis, planeei ler com regularidade outras obras do autor. Já lá vão mais de dez anos e nunca mais lhe peguei. Agora cruzou-me o caminho o seu último livro publicado, Palomar, e, claro, não perdi a oportunidade. Fiquei foi sem perceber porque é que demorei tantos anos a regressar.

O livro é fabuloso. Um conjunto de reflexões sobre diversos aspectos do dia a dia do Sr. Palomar, estruturadas de acordo com um plano rigoroso e intencional, que o autor detalha e explica nas últimas páginas.

Palomar é o nome de um observatório astronómico, e o livro joga com esse aspecto: um poderoso telescópio que começa por olhar para fora mas que se volta sempre para o âmago do próprio observador, utilizando para a sua vida mental o mesmo detalhe racional e lógico que dedicamos ao mundo exterior.

O resultado é poderoso, tão intenso e cerebral quanto absurdo e divertido. O mundo parece sempre não ser muito mais do que um mecanismo cuja simplicidade nos permite compreendê-lo, mesmo que isso apenas nos leve a novas perplexidades.

E não se tratando propriamente de um livro de ficção, e o Sr. Palomar carecer de um mínimo de densidade psicológica que a torne convincente enquanto personagem, a verdade é que aos poucos vamo-lo conhecendo cada vez melhor, ou dito talvez com mais adequação: ele vai-se apoderando de nós, tomando conta do nosso entendimento, ao ponto de não demorarmos muito a estarmos completamente viciados naquele olhar tão simples quanto espantoso.