June 28th, 2015

rosas

parabéns antónio



O meu pai faz hoje 86 anos. É o seu primeiro aniversário sem a minha mãe, apesar de esta circunstância não lhe pesar. E é também o primeiro aniversário que passa fora de casa, na instituição religiosa onde está internado.

Eu estava um pouco nervoso, não sabia muito bem o que fazer. Mas encomendei um bolo de aniversário grande, a minha prima comprou sumos, e fomos, eu, os meus primos e uma amiga da família, ter com ele depois do almoço. Claro, eu não sabia o que fazer, mas quer o pessoal da instituição quer os próprios companheiros de internamento do meu pai, sabiam muito bem.

Reunimo-nos todos na sala de estar, o staff trouxe um carrinho com o bolo já cortado, cantaram-se os parabéns, houve palmas, o bolo foi distribuído por todos, até pelas pessoas que não podem vir à sala e por visitas de outros companheiros, e algumas senhoras vieram pessoalmente cumprimentar o meu pai e desejar-lhe parabéns e felicidades.

Aquelas pessoas, quer o pessoal da instituição quer os outros doentes, não fazem ideia, mas fizeram uma das festas de aniversário mais bonitas a que assisti, e fiquei com o coração cheio.

Um dia destes a minha querida Madalena dizia-me que uma das coisas que mais a surpreendeu por ocasião da morte da sua Mãe, que também sofria de uma doença degenerativa e também estava internada numa instituição, foi descobrir que a Mãe tinha tido toda uma outra vida nessa instituição, com uma vida interior mas também com vida exterior, feita de relacionamentos sociais e afectivos.

É também isso que, tenho descoberto aos poucos, está a acontecer com o meu pai. Um destes dias, tinha o cinto das calças mal apertado e afastou-me da frente dirigindo-se a uma das suas companheiras a pedir ajuda para o compor. Creio que já o disse aqui, que pior do que o meu pai se esquecer do mundo, é o mundo estar a esquecer-se dele, o mundo dos seus familiares e amigos, das pessoas que o podiam ir visitar e nunca o fazem, das que já nem se lembram do seu aniversário. Confesso que isso me choca e me entristece.

Mas maior do que a minha tristeza, é essa alegria (tão surpreendente, não é, Madalena?) de saber que ele tem uma vida interior e uma vida social. Posso não as entender muito bem, nem saber muito bem lidar com elas, mas das quais, enquanto ele me deixar e mesmo depois disso, eu vou orgulhosamente continuar a fazer parte. O orgulho que senti ainda hoje quando liguei para Maputo e ele falou tão bem com o meu irmão, apesar de dois minutos depois já não se lembrar. Ou quando uma das enfermeiras se aproximou e lhe perguntou, apontando para mim: quem é este senhor? E ele, com aquele ar que sempre teve de quem não está para nos aturar, respondeu: este? E sacudindo os ombros: é meu filho.